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De como a ciência pode ajudar a notícia

Carlos Chaparro

Fonte: www.reescrita.jor.br


Jornalismo não é ciência. Mas também não é simples técnica, como alguns querem. Quanto mais complicado fica o mundo, e quanto mais rapidez, quantidade e complexidade as informações adquirem, integrando-se ao próprio ritmo da vida, mais qualidades e competências se exigem do jornalista. Isso, por causa do papel a um tempo regulador e dinamizador que ao jornalismo cabe, no sucesso dos conflitos que fazem a atualidade. Não basta à sociedade que o jornalista relate o que acontece. É preciso que se torne capaz de compreender e atribuir significados precisos ao que acontece. E deve fazê-lo rapidamente, inserindo-se no "hoje" do próprio acontecimento.

Neste mundo em que os sujeitos institucionalizados discursam e agem pelos acontecimentos que produzem, o jornalismo é submetido a pressões fantásticas, as pressões da quantidade e da qualidade dos fatos noticiáveis. Está submetido, também, a crescentes pressões éticas e morais, por causa da responsabilidade dos efeitos, já que as alterações pretendidas ou provocadas pelas notícias estão inevitavelmente vinculados a interesses particulares. 

No espaço e no tempo do jornalismo, disputa-se o lucro, o poder, o prestígio, a influência, a dominação. Luta-se pela sobrevivência, pela dignidade, pela preservação da vida, pelos ideais, pelo futuro. E uma nova linguagem se desenvolveu e consolidou na lógica dos conflitos da atualidade: a linguagem do acontecimento.

Sob o ponto de vista da técnica e da tecnologia, fazer jornalismo está cada vez mais fácil. Sob o ponto de vista da linguagem, torna-se cada vez mais complicado noticiar com rigor o que acontece. A atribuição de significados ao que acontece exige, além de compromissos de fundamento com princípios e valores universais, capacidade intelectual para apreender e compreender o que não aparece no formato material dos acontecimentos: os contextos, provavelmente complexos, e as razões motivadoras e controladoras, provavelmente ocultas.

Jornalismo, repita-se, não é ciência. Mas fazia-lhe bem adotar alguns procedimentos científicos. 

Analogias possíveis

É procedimento científico, por exemplo, olhar os fatos, recortá-los, respeitá-los, investigá-los, decompô-los, relacioná-los com outros - e sempre voltar a eles, para verificações e aferições. Estou convencido de que o jornalismo seria diferente, melhor, mais confiável, mais rigoroso, se os jornalistas adotassem profissionalmente esse procedimento como obrigação metodológica!

É característica do conhecimento científico transcender os fatos, ir aos antecedentes, às consequências, às razões que os próprios fatos não revelam, para que adquiram contextos de significação que possam torná-los compreensíveis. Ah! Como o relato da atualidade seria bem mais interessante e esclarecedor para os cidadãos leitores, radio-ouvintes e telespectadores, se houvesse o cuidado e o esforço jornalístico de ir além das aparências e da simples transcrição de recados organizados!

É vocação da ciência ser analítica: circunscreve os problemas, estuda-os isoladamente, em profundidade, para que do desvendamento surja a explicação clara e precisa. Que tristeza me dá quando leio textos de repórteres ou percebo decisões de editores que reduzem os relatos jornalísticos a insignificantes atas administrativas, reproduzindo discursos burocráticos, ou construindo-os. São profissionais que, talvez mais por preguiça do que por despreparo, não buscam as contradições e oposições, ou até as complementaridades que dão relevância aos problemas da atualidade. E porque não buscam a essência dos conteúdos, não a enxergam. Empobrecem o seu trabalho e o conceito de atualidade, que dá sentido e importância à profissão.

Ensina a filosofia da ciência que o conhecimento científico é verificável. Para  assim  ser,  assume hipóteses a partir de indícios, de conhecimentos pré-existentes (que devem ser pesquisados) e de raciocínios lógicos. Mas a ciência não produz nem aceita verdades a priori; testa as hipóteses, submete as conjecturas à prova, para que todas as afirmações se tornem verificáveis, ainda que para revelar a falibilidade do método. Pois está na hora de os jornalistas acreditarem que o seu sucesso depende da seriedade metodológica com que constroem e socializam conhecimento. 

Utilidade e isenção

Há pelo menos mais duas características da ciência que permitem analogias proveitosas para o jornalismo. Uma delas, a utilidade. A ciência é útil, se não por mais nada, ao menos porque produz conhecimento. E para que possa ser útil, tem como compromisso e razão de ser a busca da verdade. Mais do que isso: não apenas procura a verdade, mas faz questão de aceitá-la, qualquer que seja, e essa, a outra característica. 

A qualidade das reportagens mudaria para melhor se os jornalistas se habituassem a trabalhar, em especial nas chamadas grandes reportagens, com a metodologia e o conceito da hipótese. Na prática, porém, em vez de testar hipóteses (quando as têm...), lutam por confirmá-las, porque gostam delas, ou porque as preferem, ou porque lhes convêm. Ou por nada disso, mas simplesmente porque são preguiçosos. Pelos descaminhos da conveniência, das preferências, do gosto ou da preguiça, há jornalistas que chutam para o alto a isenção, a independência e o respeito ao dever de informar. 

Jornalismo não é ciência, nem nas ações nem no discurso. Ainda bem, porque, no mínimo das diferenças, o jornalista precisa preservar a capacidade de indignar-se. Mas o jornalismo produziria conteúdos e criaria formas de melhor qualidade se os jornalistas acreditassem nas vantagens de trabalhar com método. E se aprendessem a fazê-lo. 

Carlos Chaparro é professor de jornalismo da ECA/USP


***

 

Para pensar critérios de noticiabilidade

 Gislene Silva*

 

 

Resumo 

Este estudo propõe uma sistematização dos critérios de noticiabilidade, baseando-se em três instâncias: 1) critérios de noticiabilidade na origem do fato (seleção primária dos fatos / valores-notícia), com abordagem sobre atributos como conflito, curiosidade, tragédia, proximidade etc; 2) critérios de noticiabilidade no tratamento dos fatos, centrados na seleção hierárquica dos fatos e na produção da notícia, desde condições organizacionais e materiais até cultura profissional e relação jornalista-fonte e jornalista-receptor; e 3) critérios de noticiabilidade na visão dos fatos, sobre fundamentos ético-epistemológicos: objetividade, verdade, interesse público etc. Como parte de uma reflexão em três tempos, este estudo trata do primeiro eixo: a partir de demarcações para os conceitos de noticiabilidade, seleção e valores-notícias, faz o levantamento de vários valores-notícia e organiza um elenco simplificado com o objetivo de operacionalizar análises de notícias. 

As buscas por respostas à pergunta sobre como acontecimentos se transformam em notícia têm contribuído, ao longo das últimas quatro décadas, para a consolidação de fundamentos importantes no campo das teorias da notícia e do jornalismo. No entanto, o uso de conceitos comuns entendidos de maneira muito diversa tem dificultado a sistematização de idéias basilares no estudo da produção noticiosa. Com freqüência, emprega-se como sinônimos os conceitos de noticiabilidade, valores-notícia e seleção de notícias. Interessa-nos aqui, como a primeira das três etapas de um estudo em andamento, situar valores-notícia e seleção de notícias como conceitos específicos pertencentes ao universo mais amplo do conceito de noticiabilidade. Para Schudson, 

“...a criação das notícias é sempre uma interação de repórter, director, editor, constrangimentos da organização da sala de redação, necessidade de manter os laços com as fontes, os desejos da audiência, as poderosas convenções culturais e literárias dentro das quais os jornalistas freqüentemente operam se as pensar” (apud CORREIA: 133). 

É no percurso dessa longa cadeia produtiva da notícia que devemos investigar a rede de critérios de noticiabilidade, compreendendo noticiabilidade (newsworthiness) como todo e qualquer fator potencialmente capaz de agir no processo da produção da notícia, desde características do fato, julgamentos pessoais do jornalista, cultura profissional da categoria, condições favorecedoras ou limitantes da empresa de mídia, qualidade do material (imagem e texto), relação com as fontes e com o público, fatores éticos e ainda circunstâncias históricas, políticas, econômicas e sociais. 

Tal entendimento nos leva a estabelecer instâncias ou conjuntos diferenciados de critérios de noticiabilidade: (a) na origem dos fatos (seleção primária dos fatos/valores-notícia), considerando atributos próprios ou características típicas, que são reconhecidos por diferentes profissionais e veículos da imprensa; (b) no tratamento dos fatos, centrando-se na seleção hierárquica dos fatos e levando-se em conta, para além dos valores-notícia dos fatos escolhidos, fatores inseridos dentro da organização, como formato do produto, qualidade do material jornalístico apurado (texto e imagem), prazo de fechamento, infra-estrutura, tecnologia etc, como também fatores extra-organizacionais direta e intrinsecamente vinculados ao exercício da atividade jornalística, como relações do repórter com fontes e públicos; (c) na visão dos fatos, a partir de fundamentos éticos, filosóficos e epistemológicos do jornalismo, compreendendo conceitos de verdade, objetividade, interesse público, imparcialidade que orientam inclusive as ações e intenções das instâncias ou eixos anteriores. Esses conjuntos, com certeza, não funcionam de modo isolado. Na prática da produção noticiosa, todos esses critérios variados de noticiabilidade atuam concomitantemente.

Mauro Wolf é um dos autores que explica noticiabilidade como resultante da cultura profissional e seus valores como também da organização do trabalho. 

“A noticiabilidade é constituída pelo complexo de requisitos que se exigem para os eventos – do ponto de vista da estrutura do trabalho nos aparatos informativos e do ponto de vista do profissionalismo dos jornalistas –, para adquirir a existência pública de notícia.” (p.195). 

Mais adiante, referenciando Magistretti, Wolf continua sua explicação: 

“Sendo assim, o produto informativo parece ser resultado de uma série de negociações, orientadas pragmaticamente, que têm por objeto o que dever ser inserido e de que modo dever ser inserido no jornal, no noticiário ou no telejornal. Essas negociações são realizadas pelos jornalistas em função de fatores com diferentes graus de importância e rigidez, e ocorrem em momentos diversos do processo de produção.” (WOLF:.200).

Nelson Traquina, ao falar da teoria etnoconstrucionista, entende que as notícias são o resultado de um processo de produção definido como a percepção, a seleção e a transformação de uma matéria-prima (principalmente os acontecimentos) num produto (p.94). E citando Robert Hackett, enumera que esse produto resulta de: características tecnológicas de cada meio noticioso, logísticas de produção jornalística, imperativos comerciais, retraimentos orçamentais, inibições legais, disponibilidade de informação das fontes, necessidade de narrar o fato de modo inteligível e atraente, para um determinado público (p. 63). 

É reducionista, portanto, definir noticiabilidade ou somente como conjunto de elementos por meio dos quais a empresa jornalística controla e administra a quantidade e o tipo de acontecimentos ou apenas como o conjunto de elementos intrínsecos que demonstram a aptidão ou potencial de um evento para ser transformado em notícia. Noticiabilidade seria a soma desses dois conjuntos, acrescentada daquele terceiro que trata de questões ético-epistemológicas. Preferível será localizar tal aptidão do fato em si no campo dos valores-notícia, entendidos aqui como atributos que orientam principalmente a seleção primária dos fatos – e, claro, que também interferem na seleção hierárquica desses fatos na hora do tratamento do material dentro das redações. Antes, porém, retomemos o conceito de seleção de notícias. 

A necessidade de se pensar sobre critérios de noticiabilidade surge diante da constatação prática de que não há espaço nos veículos informativos para a publicação ou veiculação da infinidade de acontecimentos que ocorrem no dia-a-dia. Frente a volume tão grande de matériaprima, é preciso estratificar para escolher qual acontecimento é mais merecedor de adquirir existência pública como notícia. Muitos autores ao analisar a seleção de notícias concentram sua atenção nos valores-notícias (características do fato em si) e na ação pessoal do profissional, mas, ao avançarem nas comprovações de que a seleção prossegue no trajeto do tratamento dos fatos dentro da redação, costumam empregar como sinônimos seleção e valores-notícia. Ambos são componentes da noticiabilidade, mas recomenda-se aqui neste estudo compreender tais conceitos de modo distinto. 

Os estudos de seleção de notícias partem geralmente do conceito de gatekeeper (seletor de notícia), aplicado ao jornalismo no estudo clássico de David Manning White, divulgado nos anos 50 (1) e difundido nos estudos acadêmicos de comunicação na década de 60. Muito antes, porém, segundo Michael Kunczik, há registros de estudos sobre o modo como se selecionam as notícias. 

“No Schediasma Curiosum de Lectione Novellarum, de 1676, Cristian Weise afirma que ao selecionar as notícias se deve separar o verdadeiro do falso. Daniel Hartnack, em 1688, também tratou do problema da seleção de notícias em seu Erachten von Einrichtung der alten teutschen und neuen europäisschen Historien, enfatizando a importância dos fatos. As conseqüências de um acontecimento eram decisivas para decidir se ele seria divulgado ou não.” (KUNCZIK: 241). 

Naquela que é considerada a primeira pesquisa acadêmica sobre jornalismo, De relationibus novellis, de Tobias Peucer  – tese apresentada em 1690 na Universidade de Leipzig –, também já se fala em seleção de fatos que merecem ser recordados ou conhecidos, e, como se verá diante, o autor já descreve as características de tais acontecimentos. Ao se pensar, tradicionalmente, a seleção a partir de fatos que tenham valor como notícia, vinculou-se tais conceitos a uma única definição. A seleção, certamente, começa na etapa primeira de ter-se que escolher entre alguns acontecimentos e outros para se noticiar. Nessa etapa, que poderíamos nomear como seleção primária, os valores-notícia funcionam como critérios de boa orientação, consolidados na prática histórica; uns mais persistentes e outros mais mutáveis. 

Mas não basta aos seletores de notícias escolher entre um acontecimento que será publicado e outro que ficará de fora, na gaveta das matérias mortas ou que simplesmente será deletado, sem chance de ganhar vida pela visibilidade noticiosa. Entre os selecionados será preciso escolher novamente quais deles merecem entrar nas chamadas dos telejornais ou quais ganharão as primeiras páginas dos impressos, ou mesmo quais ocuparão mais espaço nas páginas internas. A seleção, portanto, se estende redação adentro, quando é preciso não apenas escolher, mas hierarquizar. 

Ora, ao tratar jornalisticamente os fatos na produção material da notícia, a seleção e hierarquização recorrem sim aos valores-notícia. Mas estes agem aqui apenas como uma parte do processo, pois nessas escolhas seqüenciadas entrarão outros critérios de noticiabilidade, como formato do produto, qualidade da imagem, linha editorial, custo, público alvo etc. Valores-notícia, as características do fato em si, em sua origem, são somente um subgrupo de fatores agindo juntamente com esse segundo conjunto de critérios de noticiabilidade, relacionados agora ao tratamento do fato. Estudar a seleção implica, inclusive, rastrear os julgamentos próprios de cada seletor, as influências organizacionais, sociais e culturais que este sofre ao fazer suas escolhas, os diversos agentes dessas escolhas postados em diferentes cargos na redação, e até mesmo a participação das fontes e do público nessas decisões – aqui vale lembrar os estudos de agendamento (agenda-setting), que complexificam as investigações sobre o processo de seleção das notícias. 

No que diz respeito especificamente aos valores-notícias, o conceito poderia ser demarcado sistematizando-se aspectos apontados de forma ligeira por vários autores. Chamados também de valores informativos ou fatores de notícia, esse grupo de critérios cerca a noticiabilidade do acontecimento considerando origem do fato, fato em si, acontecimento isolado, características intrínsecas, características essenciais, atributos inerentes ou aspectos substantivos do acontecimento. Antes de se pensar nos critérios de noticiabilidade atuantes no tratamento do fato, e em todas as diferenciações de apresentação da notícia em produtos jornalísticos diversos, é possível investigar a repetição da seleção primária, a homogeneidade da escolha por diferentes profissionais e veículos. Não por acaso, como lembra Nelson Traquina (p.55), foi esse, já em 1965, o objetivo do estudo sobre a estrutura das notícias internacionais de J. Galtung e M. Ruge, a primeira reflexão teórica sobre a questão dos valores-notícia na seleção dos acontecimentos pelos jornalistas. Pesquisas pontuais demonstram que a seleção, em diferentes produtos jornalísticos, toma como valor noticioso o mesmo tipo de acontecimento. Procurar a similaridade nesse caso deve ser tão pertinente, do ponto de vista da pesquisa, como investigar as diferenciações. 

Já se sabe que os valores-notícia agem em todo o processo de produção da informação jornalística. Disso não se discorda aqui. O problema é o uso que se faz do conceito. Para Wolf, “valores-notícia são critérios de relevância difundidos ao longo de todo o processo de produção e estão presentes tanto na seleção das notícias como também permeiam os procedimentos posteriores, porém com importância diferente” (p.202). Nessa definição, a seleção parece restrita apenas em sua etapa primária, sendo que, como defende-se nesse exercício reflexivo, ela continua na etapa seguinte, incluída no conjunto dos demais procedimentos posteriores, a que chamamos de tratamento do fato. O autor baseia-se na análise de P. Golding e P. Elliot (Making the news, 1979), em que a compreensão da ação dos valores-notícia é mais clara, indo da seleção primária ao tratamento do material jornalístico, mas com definição igualmente não muito precisa: 

“Os valores-notícia são usados de duas maneiras. São critérios para selecionar, do material disponível para a redação, os elementos dignos de serem incluídos no produto final. Em segundo lugar, eles funcionam como linhas-guia para a apresentação do material, sugerindo o que deve ser enfatizado, o que deve ser omitido, onde dar prioridade na preparação das notícias a serem apresentadas ao público.(...) Os valores/notícia são a qualidade dos eventos ou da sua construção jornalística, cuja ausência ou presença relativa os indica para a inclusão num produto informativo. Quanto mais um acontecimento exibe essas qualidades, maiores são suas chances de ser incluídos.” (Golding e Elliot apud WOLF: 203). 

Apesar de agirem em diferentes momentos, na seleção primária, para a triagem, e na seleção hierárquica, como linhas-guia para o tratamento das matérias, os valores-notícia devem ser definidos como as qualidades dos eventos e não “da sua construção jornalística”. Eles participam ativamente da construção noticiosa, mas a produção da notícia e sua qualidade são resultado de muitos outros critérios ou fatores de noticiabilidade. 

Demarcar o conceito de valores-notícia no território do acontecimento em si não significa, porém, ignorar a presença do sujeito-jornalista diante da matéria-prima noticiosa. Pamela Shoemaker fala da utilização de um esquema noticioso (news schema), uma espécie de esquema categorial relativo às notícias, e crê, todavia, que a construção de categorias é um processo que ultrapassa cada pessoa em particular, seu julgamento pessoal do que é noticioso (news judgement), especialmente quando esse profissional se integra num grupo, como acontece geralmente nos órgãos de comunicação jornalística (apud Sousa:43). Numa mesma abordagem, Schudson observa que as notícias se apóiam e fazem uso de padrões culturais pré-existentes para se realizarem e para produzirem sentido (apud Sousa:38). Também D. Altheide trabalha com a idéia de perspectiva da notícia (news perspective), de que a escolha do que é noticiável implica características necessárias para o fato entrar no formato, estilo, natureza da narrativa (apud Campbell: 117). 

É preciso considerar que os valores-notícia são um mapa cultural, como define Stuart Hall; ou como afirma John Hartley, os valores-notícia não são naturais nem neutros, “eles formam um código que vê o mundo de uma forma muito particular (peculiar até). Os valores-notícia são, de fato, um código ideológico” (ambos autores apud Traquina:115-116). Cristina Ponte, pesquisadora portuguesa, resume bem a problemática dos valores-notícia. Primeiro ao lembrar, citando H. Hughes, que os valores-notícia não são simples marcas de seleção, mas, mais importante, são marcas de representação; uma vez que a seleção seria um “acto ideológico de representação” (p.129). Depois, ao retomar Stuart Hall: 

“Ao contrário da idéia de que as notícias se pautam, sobretudo, pelo inesperado (um homem que morde o cão...) ou pela negatividade (bad news, good news) e ainda reconhecendo a força cultural destas imagens, tenta-se nesta revisão acentuar outras dimensões de valores-notícia, uma das estruturas mais opacas de significado, nas palavras de Stuart Hall. Para este investigador britânico, os valores-notícia são mais do que uma listagem de atributos das notícias, combinados ou combináveis. Operam como estrutura de retaguarda social, profunda e escondida, e requerem um conhecimento consensual sobre o mundo.” (PONTE: 114). 

A demarcação do conceito de valores-notícia se dá, então, dentro da larga compreensão de que a notícia é uma construção social, ou como prefere Schudson, a notícia é um produto cultural. 

Um mapa, código, perspectiva ou esquema que orienta o trabalho do jornalista, que os auxilia no campo do saber de reconhecimento (2). Esse saber de reconhecimento é a capacidade de identificar quais são os acontecimentos que possuem valor como notícia. Esse saber, argumentam vários pesquisadores em discordância de muitos profissionais jornalistas, não é instintivo, não depende de faro. Na opinião de Golding e Elliot, não é verdade que os valores-notícia estejam além da compreensão dos jornalistas, eles constituem referências claras e disponíveis a conhecimentos compartilhados a respeito da natureza e objetos das notícias, “referências que podem ser utilizadas para facilitar a elaboração complexa e rápida dos noticiários” (apud Wolf: 203). 

Mais ainda, no campo de estudos sobre produtos jornalísticos específicos, os valores-notícia constituem também referências para a operacionalidade de análises de notícias, permitindo identificar similaridades e diferenciações na seleção ou hierarquização de acontecimentos em diversos veículos da imprensa, e possibilitando percepções históricas e culturais sobre o processo produtivo das notícias. Podem ter utilidade não só no estudo de fatos noticiáveis, mas também no que diz respeito a acontecimentos noticiados. 

Valores notícias: atributos dos acontecimentos 

Ao indicar quais as características dos acontecimentos merecedores de serem conhecidos pelo público, Peucer já dizia no século XVII que o que é comum e normal possui pouco valor informativo. E como acontecimentos que mereceriam ser conhecidos e recordados, elencava: 

“Os prodígios, as monstruosidades, as obras ou os feitos maravilhosos e insólitos da natureza, da arte, as inundações ou as tempestades horrendas, os terremotos, os fenômenos descobertos ou detectados ultimamente, fatos que têm sido mais abundantes do que nunca neste século. Depois as diferentes formas de impérios, as mudanças, os movimentos, os afazeres da guerra e da paz, as estratégias, as novas leis, os julgamentos, os cargos políticos, os dignatários, os nascimentos e mortes dos príncipes, as sucessões de um reino, as inaugurações e cerimônias públicas (...), as obras novas dos homens eruditos, as instituições, as desgraças, as mortes e centenas de coisas mais que façam referência à história natural, à história da sociedade, da Igreja, da literatura: tudo isto costuma ser narrado de forma embaralhada nos periódicos...” (PEUCER: 21). 

Também Kaspar Stieler, mencionado por Michael Kunczik (p.242), dizia em 1695 que os redatores deveriam saber distinguir entre o é importante e o que é comum; e apontava como valores explícitos a novidade, a proximidade geográfica, a proeminência e o negativismo. Dando um salto para o século XX, Walter Lippmann, em 1922, em obra inaugural, Opinião pública, elege como atributos: clareza, surpresa, proximidade geográfica, impacto e conflito pessoal. Em 1959, Fraser Bond publica Introdução ao Jornalismo, no qual destaca entre as características dos fatos sua capacidade de despertar o interesse e a atenção do público. Lembra das situações da vida humana, como saúde, segurança e bem-estar, e reforça a idéia de que um acontecimento noticiado pode conter um ou vários elementos de interesse. 

“Às vezes, a matéria conterá diversos destes elementos provocadores de interesse, outras vezes, apenas um. Em cada caso, o elemento dominante presente nos indica qual o tipo de categoria do assunto.” (BOND: 71). 

O autor enumera doze situações a que denomina valores jornalísticos das notícias, e que podem ser assim resumidas (3): referente à pessoa de destaque ou personagem público (proeminência); incomum (raridade); referente ao governo (interesse nacional); que afeta o bolso (interesse pessoal/econômico); injustiça que provoca indignação (injustiça); grandes perdas de vida ou bens (catástrofe); conseqüências universais (interesse universal); que provoca emoção (drama); de interesse de grande número de pessoas (número de pessoas afetadas); grandes somas (grande quantia de dinheiro); descoberta de qualquer setor (descobertas/invenções) e assassinato (crime/violência). 

Na seqüência, vários pesquisadores propõem, a partir de seus trabalhos de campo, diversas listagens de atributos dos acontecimentos, características necessárias para que fatos fossem selecionados como notícias. Em 1965, como já foi dito, Galtung e Ruge, ao se perguntarem como os acontecimentos se transformam em notícias, chegaram a doze valores-notícia: freqüência, amplitude, clareza ou falta de ambigüidade, relevância, conformidade, imprevisão, continuidade, referência a pessoas e nações de elite, composição, personificação e negativismo. 

No decorrer da segunda metade do século XX, e a partir dos levantamentos feitos por Nelson Traquina, Mauro Wolf e Michael Kunczik e de textos de autores brasileiros como Manuel Carlos Chaparro, Mário Erbolato e Nilson Lage, pode-se encontrar diversos elencos de valores-notícia: 

  • Stieler: novidade, proximidade geográfica, proeminência e negativismo.
  • Lippman: clareza, surpresa, proximidade geográfica, impacto e conflito pessoal.
  • Bond: referente à pessoa de destaque ou personagem público (proeminência); incomum (raridade); referente ao governo (interesse nacional); que afeta o bolso (interesse pessoal/econômico); injustiça que provoca indignação (injustiça); grandes perdas de vida ou bens (catástrofe); conseqüências universais (interesse universal); que provoca emoção (drama); de interesse de grande número de pessoas (número de pessoas afetadas); grandes somas (grande quantia de dinheiro); descoberta de qualquer setor (descobertas/invenções) e assassinato (crime/violência).
  • Galtung e Ruge: freqüência, amplitude, clareza ou falta de ambigüidade, relevância, conformidade, imprevisão, continuidade, referência a pessoas e nações de elite, composição, personificação e negativismo.
  • Golding-Elliot: drama, visual atrativo, entretenimento, importância, proximidade, brevidade, negativismo, atualidade, elites, famosos.
  • Gans: importância, interesse, novidade, qualidade, equilíbrio.
  • Warren: atualidade, proximidade, proeminência, curiosidade, conflito, suspense, emoção e conseqüências.
  • Hetherington: importância, drama, surpresa, famosos, escândalo sexual/crime, número de pessoas envolvidas, proximidade, visual bonito/atrativo.
  • Shoemaker et all: oportunidade, proximidade, importância/impacto, conseqüência, interesse, conflito/polêmica, controvérsia, sensacionalismo, proeminência, novidade/curiosidade/raro.
  • Wolf: importância do indivíduo (nível hierárquico), influência sobre o interesse nacional, número de pessoas envolvidas, relevância quanto à evolução futura.
  • Erbolato: proximidade, marco geográfico, impacto, proeminência, aventura/conflito, conseqüências, humor, raridade, progresso, sexo e idade, interesse pessoal, interesse humano, importância, rivalidade, utilidade, política editorial, oportunidade, dinheiro, expectativa/suspense, originalidade, culto de heróis, descobertas/invenções, repercussão, confidências.
  • Chaparro: atualidade, proximidade, notoriedade, conflito, conhecimento, conseqüências, curiosidade, dramaticidade, surpresa.
  • Lage: proximidade, atualidade, identificação social, intensidade, ineditismo, identificação humana.

A proposta que se faz aqui é pensar uma tabela operacional que contemple não só o consenso entre os atributos listados pelos diversos autores como também a inclusão de outros que por precisão e originalidade possam contribuir para análises de acontecimentos noticiáveis/noticiados. Um primeiro procedimento necessário, de acordo com o conceito de valores-notícia adotado aqui nesse artigo, é separar atributos que funcionam mais como macro-valores-notícia ou pré-requisitos para qualquer seleção jornalística, já que sem tais valores antecedentes os demais, os micro-valores-notícia, nem se efetuam como questão. Esse é o caso de atualidade (novidade), importância, interesse, negativismo, imprevisibilidade, coletividade e repercussão.

Ser um fato atual ou um acontecimento portador de algum dado novo é o princípio primeiro do jornalismo. Quanto à importância e ao interesse, o tema remete imediatamente à clássica separação entre hard news e soft news / fait divers ou, na conceituação de Lorenzo Gomis (4), o importante seria a informação que todos precisam saber e o interessante, uma informação que o público gostaria de saber, uma informação agradável de se conhecer. Os dois conceitos, segundo o autor, “cobrem todo campo de valores-notícia” (p.226). Gomis destaca ainda da grande lista o valor-notícia repercussão, que nas listagens se equivale ao de conseqüência e, em segundo plano, ao de continuidade. 

Sugere-se ainda separar da elaboração de um elenco operacional de valores-notícia outros macro-valores-notícia: negativismo (negatividade) X otimismo (positividade), coletividade X individualidade e ainda a imprevisão (imprevisibilidade) X previsão (previsibilidade/continuidade). Esses macro-valores regem os demais, os micro-valores-notícia. Um acontecimento cujo valor-notícia dominante seja a tragédia ou a proeminência pode ser resultado da combinação dos macro-atributos negativo-coletivo-imprevisto ou positivo-individual-previsto, ou resultado de todas as variações aí possíveis, retomando inclusive os macro-valores importante (interesse público) e/ou interessante (interesse do público) – lembrando ainda, obviamente, que um mesmo acontecimento pode carregar em si mesmo atributos contrários. 

Também os valores-notícia clareza e freqüência exigiriam estudos aprofundados para justificá-los num elenco operacional de atributos. O primeiro, por nem sempre impedir que acontecimentos inacabados ou mesmo obscuros sejam eleitos como notícias; o segundo, por se contrapor ao valor-notícia raridade (incomum/fora da normalidade), embora a repetição (de aumentos de preços, de assassinato, etc.) possa justificar muitas pautas. 

Como sugestão de uma tabela operacional que possibilite análises de acontecimentos noticiosos selecionados/selecionáveis por diferentes veículos da imprensa, segue a listagem abaixo. Ela é resultado de uma avaliação dos atributos apontados anteriormente por diferentes autores, considerando até mesmo aqueles citados por Peucer, como o que diz respeito às sucessões de um reino e formas de império e cerimônias públicas. 

Proposta de tabela de valores-notícia para operacionalizar análises de acontecimentos noticiáveis / noticiados 

IMPACTO 

Número de pessoas envolvidas (no fato) 

Número de pessoas afetadas (pelo fato) 

Grandes quantias (dinheiro) 

PROEMINÊNCIA

Notoriedade 

Celebridade 

Posição hierárquica 

Elite (indivíduo, instituição, país) 

Sucesso/Herói 

ENTRETENIMENTO/CURIOSIDADE 

Aventura 

Divertimento 

Esporte 

Comemoração 

CONFLITO 

Guerra 

Rivalidade 

Disputa 

Briga 

Greve 

Reivindicação 

POLÊMICA 

Controvérsia 

Escândalo 

CONHECIMENTO/CULTURA 

Descobertas 

Invenções 

Pesquisas 

Progresso 

Atividades e valores culturais 

Religião 

RARIDADE

Incomum 

Original 

Inusitado 

PROXIMIDADE 

Geográfica 

Cultural 

GOVERNO 

Interesse nacional 

Decisões e medidas 

Inaugurações 

Eleições 

Viagens 

Pronunciamentos  

SURPRESA

Inesperado 

TRAGÉDIA/DRAMA

Catástrofe

Acidente 

Risco de morte e Morte 

Violência/Crime 

Suspense 

Emoção 

Interesse humano 

JUSTIÇA

Julgamentos 

Denúncias 

Investigações 

Apreensões 

Decisões judiciais 

Crimes


Essa tabela foi aplicada, como primeiro experimento, por Érica Franzon na análise das chamadas de dois telejornais, o Jornal Nacional, da TV Globo, e o Jornal da Cultura, da TV Cultura de São Paulo (5). Foi possível verificar, entre outras coisas, que ambos os telejornais dão destaque para os acontecimentos ligados à proeminência, ao governo e à justiça, nessa ordem de entrada; ou ainda que, nas chamadas do Jornal Nacional, fatos relacionados à tragédia/drama e ao entretenimento ocupam mais lugar; e que, no Jornal da Cultura, acontecimentos muito polêmicos ou vinculados ao conhecimento têm certa prioridade. Esse elenco de valores-notícia aqui proposto deverá ser aplicado outras vezes para ganhar mais validade, testando sua operacionalidade no estudo dos acontecimentos selecionados e hierarquizados na primeira-página dos impressos, nas chamadas nos telejornais e mesmo nas capas de revistas – essa tabela exposta aqui passou modificações depois da pesquisa de Franzon. 

Mas faz-se necessário nesses exercícios de investigação não se esquecer das advertências feitas por Fernando Correia: valores-notícia se aplicam em todas as fases da atividade jornalística; não se constituem necessariamente como impedimentos ao trabalho do jornalista; não funcionam isoladamente, mas em diferentes combinações e de forma negociada; fazem parte da cultura profissional dos jornalistas, constituindo-se não em critérios abstratos ou pontuais, mas sim num quadro de avaliação racionalizado e interiorizado pelos jornalistas; sua utilização visa permitir uma operacionalidade no processo de produção da notícia e orientação da ação da rotina dos jornalistas; valores-notícia evoluem com o tempo, não constituindo arquétipos imutáveis. 

Vicent Campbell, quando discute news values and news selection, traz novos argumentos que contribuem para complexificar a demarcação do conceito de valores-notícia. Um deles é o de que os valores notícia determinam a seleção dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, a seleção de fatos noticiosos também determina os valores-notícia. Ou seja, valores-notícia seriam causa e conseqüência da seleção. O autor, fazendo referência ao estudo de Rodney Tiffen, ainda aponta as limitações das teorias dos valores notícia: o argumento de muitos estudiosos de que não existe uma fórmula universal; a pouca consistência desses valores, considerados muito vulneráveis e mutantes; e o fato de que não só diferentes organizações como até mesmo repórter e editor de uma mesma empresa discordam entre si e percebem diferentemente o que são os valores-notícia. 

Delimitar valores-notícia separadamente do conceito de seleção de notícias, definir valores-notícia como atributos do acontecimento e reconhecê-los ao mesmo tempo como construção social e cultural é apenas um primeiro procedimento para pensar a noticiabilidade, cujo processo exige muitas outras reflexões, passando, como etapas seguintes, pelo tratamento dos fatos noticiosos e pela interpretação que a notícia faz desses acontecimentos. 

Sobre o texto 

Parte dessa reflexão sobre a distinção do conceito de valores-notícia frente aos conceitos de seleção de notícia e noticiabilidade se encontra no trabalho apresentado pela autora na II SBPJor, Salvador, Ba, nov.2004. 

*Professora do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a pesquisadora defendeu em 2000 a tese O imaginário rural do leitor urbano: o sonho mítico da casa no campo, no programa de doutoramento em Antropologia da PUC de São Paulo. 

Notas

(1) O termo gatekeeper foi introduzido pelo psicólogo social Kurt Lewin, em 1947, e tratava de decisões domésticas relativas à aquisição de alimentos para casa; de acordo com Michael Kunczik (p.234), o conceito foi empregado já em 1913 com esse sentido de seleção de informações, em trabalho alemão sobre formação de gostos literários. 

(2) Um dos três saberes apontados por Ericson, Baranek e Chan, 1987, (apud Traquina:118) e que incluem ainda saber de procedimento e saber de narração.

(3) A escolha dos termos em negrito foi baseada em valores-notícia elencados posteriormente por diversos autores. 

(4) Gomis, Lorenzo. Do importante ao interessante – ensaio sobre critérios para a noticiabilidade no jornalismo. Pauta Geral 4, 2002, pp 225-242. 

(5) Érica Franzon, monografia. Os valores-notícia em telejornais, dez.2004, III Curso de Especialização em Estudos de Jornalismo (lato sensu) da UFSC. (orientadora a Profa. Gislene Silva). 

  

Bibliografia

 

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Apesar de muito citado, Interesse Público

 continua a ser um conceito vago*

 

Carlos Chaparro

 

*Texto extraído do Blog do Prof. Chaparro

Nas discussões sobre Jornalismo, sempre vem à baila a questão do Interesse Público, sem que se expique o que vem a ser isso. Trata-se de uma questão de enorme relevância, numa sociedade, como a nossa, empenhada em construir democracia. E da construção da democracia faz parte o dever jornalístico de socializar a informação de interesse público. Mas, o que vem a ser "Interesse Público"?

Convém começar pelo entendimento de que a atualidade é um ambiente de conflitos onde se confrontam ações em favor de interesses particulares. Tudo deságua no ambiente da informação, do qual fazem parte, também, os interesses da mídia e dos mediadores - econômicos, políticos, profissionais, ideológicos... E porque se trata de interesses mais ou menos antagônicos, provavelmente legítimos, dos confrontos resultam os ajustamentos que produzem aperfeiçoamentos dos modelos e valores da convivência humana.

O jornalismo não tem que temer ou desprezar os interesses particulares. Além de legítimos, eles movimentam a engrenagem da atualidade. Mas, como a sociedade espera do jornalismo o relato veraz dos acontecimentos, e a explicação isenta de fatos e contextos, exige-se que os comportamentos do jornalismo tenham motivos vinculados não a algum dos interesses particulares em jogo, mas ao tão falado interesse público - para que, no dia seguinte, a própria atualidade tenha desdobramentos convenientes à sociedade.

O fulcro da questão está na seguinte pergunta-chave: o que vem a ser interesse público?

O conceito de interesse público está implícito na idéia platônica do Bem, que para Platão era princípio do Ser e do Conhecimento: “Assim como o Sol é a fonte da geração, do crescimento e da nutrição, o Bem é a causa da inteligibilidade de todas as coisas inteligíveis e também do ser e da essência”. (PLATÃO, Diálogos – A República, Rio de Janeiro, Ediouro, p. 178).

Para Platão, a esfera do que é público está na cidade devidamente ordenada. Na cidade-república de Platão, a ordem pública deve ser confiada à administração de “pessoas sensatas, eficientes, e que dediquem (...) um cuidado especial à comunidade” (op. cit., p. 93). Nesse princípio de ordem e razão, em função da cidade justa e verdadeira, legou-nos o platonismo uma certa noção do que poderia ser chamado de interesse público.

Mas o mundo de hoje, nem no plano das utopias se rege pelas idéias de Platão. Na cidade real do século XXI, é mais fácil entender o interesse privado e zelar por ele. E o interesse público, apesar de muito citado, continua a ser um conceito vago, aberto a uma ampla variedade de enfoques e entendimentos.

Uma boa amostra dessa diversidade foi conseguida pela Associação Filosófica Americana, que no início da década de 60, sob a coordenação de Wayne A. R. Leys e Charner Perry, reuniu estudos de 19 especialistas interessados no assunto. A organização do livro, com os 19 ensaios,foi confiada a Carl J. Friedrich. (FRIEDRICH, Carl J., O Interesse Público, Rio de Janeiro, Edições O Cruzeiro, sem data. Edição original: The Public Interest, Atherton Press, 1962).

Na apreciação geral dos estudos reunidos, Wayne Leys tentou produzir a síntese dos diversos autores, atribuindo dois sentidos ao termo “interesse público”: um Sentido Formal e um Sentido Substantivo.

No Sentido Formal, o interesse público manifesta-se nas decisões geradas pela intenção ou pela vontade do governante, qualquer que seja o objeto de uma ação devidamente autorizada. Leys esclarece que esta é uma concepção utilitária ou agregativa, que eleva ao máximo a satisfação dos interesses particulares, inspirada na concepção oferecida pela área econômica, para a qual o interesse público é a mesma coisa que a economia do bem-estar. Ou a soma dos interesses privados bem atendidos. 

No Sentido Substantivo, o interesse público localiza-se no objeto procurado na ação governamental e na ação não governamental (entendida como ação delegação do poder governamental ou que, por aceitação, substitui a ação governamental). Há, neste sentido, uma concepção pluralista pela qual tanto as decisões quanto os objetivos têm a sanção de processos legais ou políticos adequados, como, por exemplo, as normas geradas democraticamente pela maioria ou processos de lei. 

O Sentido Substantivo, mais amplo e mais adequado a aplicações no campo do jornalismo, agrega os entendimentos que os juristas e os cientistas políticos dão ao estudo e ao uso do termo “interesse público”. Em tal visão, os interesses privados devem ser respeitados e atendidos na observância de normas públicas instituídas por algum processo social, político e/ou cultural legitimado por consensos ou acordos. 

Nas divergências entre as diversas posições, uma unanimidade ganhou espaço no debate e interessa particularmente a esta reflexão: o interesse público não existe em oposição ao interesse privado. Não é essa a lógica. Do mesmo modo, também é redutora a visão liberal da questão, quando se define o interesse público como a soma dos interesses particulares atendidos. 

Trata-se, certamente, de um modo prático, provavelmente eficaz, de lidar com o problema, pois pode supor-se que quanto maior é o atendimento dos interesses particulares melhor será o nível de realização do interesse público. Mas não se pode acolher como satisfatória a explicação liberal do interesse público, por existir na questão uma dimensão filosófica essencial, relacionada com os valores que produzem e justificam as regras do jogo. 

Freqüentemente, o interesse público está simbolizado em determinados interesses particulares, o que evidencia a inexistência de oposição entre as duas instâncias. O protesto de uma pessoa portadora de deficiência física, diante da impossibilidade de acesso ao transporte público ou à casa de espetáculos, ou à escola, é a manifestação de um interesse particular frustrado. Mas constitui, também, a denúncia do desrespeito a um valor-norma estabelecido pela sociedade, o de que, sendo todos os cidadãos iguais, constitui injustiça intolerável a exclusão provocada pela deficiência física. 

O interesse público não está no fato isolado. Mas o fato isolado simboliza o interesse público, porque manifesta a agressão a um valor (ou princípio) estabelecido como bom pela sociedade. No valor agredido, e não no fato, estão as razões do interesse público. 

A deontologia - conjunto de normas jurídicas ou morais, para o controlo e o julgamento de comportamentos profissionais - relaciona-se certamente com o interesse público. Até o traduz. Mas integra a instância da Moral, que, como diz Sánchez Vasquez, “cuida dos problemas práticos e dos problemas que se apresentam nas relações (...) entre os indivíduos, ou quando se julgam certas decisões e ações dos mesmos”. (VÁSQUEZ, Adolfo Sánchez, Ética (12a edição), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1990). 

O interesse público está na instância da Ética. De acordo com Cornu, “a ética da informação (...) implica o abandono do termo ‘moral’ (...)”, embora conserve a moral como objeto e o recurso da referência aos usos, às normas, à regulamentação das práticas. (CORNU, Daniel, Ética da Informação, Bauru (Brasil, SP), EDUSC, 1998, p. 11). 

Ao estudar os costumes do comportamento humano, a Ética inspira a criação, a supressão ou a mudança dos princípios e valores que as sociedades assumem e sobre os quais fundamentam seus projetos políticos. São esses valores, não as regras deontológicas, que devem determinar critérios e motivos à ação jornalística. Se a essência do interesse público estivesse na deontologia, poderíamos aceitar que não se deve matar, mentir ou roubar, ou agredir o direito à privacidade de quem quer que seja (e não apenas a dos olímpicos), somente porque tais atos são proibidos e puníveis. 

Talvez a exigência mais contraditória do jornalismo seja a de adequar as razões da notícia às razões do interesse público, e vice-versa, quando relata e interpreta conflitos. Porque as relevâncias da atualidade estão, freqüentemente, nas contradições entre valores estabelecidos, que entre si se opõem.


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O Jornalismo é uma Forma de Conhecimento?*

 Eduardo Meditsch**

 

Introdução

Convidaram-me a vir até aqui falar sobre uma pergunta, o que é uma perspectiva bastante interessante. Dizia o educador Paulo Freire, que faleceu no Brasil há pouco tempo, que todo o conhecimento autêntico nasce de uma pergunta. Dizia mais: que não há conhecimento sem pergunta. O ato de conhecer seria necessariamente o ato de perguntar e de responder à pergunta. Neste aspecto, a interrogação colocada no título pelo professor Mário Mesquita é extremamente apropriada.

Não posso garantir se, ao final da minha exposição e do debate que faremos sobre ela, alguém no auditório estará suficientemente esclarecido para responder a pergunta do título. A pergunta é demasiado complexa e admite interpretações diferenciadas. Vou apresentar aqui a minha visão, que aponta para esta mesma frase como resposta à pergunta, no sentido afirmativo, sem o ponto de interrogação, embora com algumas ressalvas.

No entanto, há uma segunda pergunta subjacente a este debate, que é a que está expressa no tema geral do curso, e que pode representar uma armadilha: “Jornalismo: Transmissão de Conhecimentos ou Degradação do Saber? Aparentemente, se respondermos à primeira pergunta de uma determinada maneira – por exemplo, suprimindo o ponto de interrogação – estaremos automaticamente respondendo à segunda, posicionando-nos entre as duas alternativas que estão dadas na sua formulação.

Os jornalistas gostam de montar este tipo de armadilha, e os incautos costumam cair nelas com facilidade. Aí, é necessário ter cuidado para evitar um tropeço. Então, saliento que ao longo da exposição procurarei responder à primeira pergunta suprimindo o ponto de interrogação, mas que esta resposta não implica necessariamente num posicionamento entre os termos que aparecem como mutuamente excludentes na segunda pergunta. A hipótese que vou defender é de que o Jornalismo é uma forma produção de conhecimento. No entanto, na prática, esta forma de conhecimento tanto pode servir para reproduzir outros saberes quanto para degradá-los, e é provável que muitas vezes faça essas duas coisas simultaneamente.

Abordagens do Jornalismo como Conhecimento

A questão do Jornalismo enquanto conhecimento, por sua complexidade, admite muitas interpretações, como já foi dito. Para simplificar a exposição, vou classificar estas interpretações, que compreendem diferentes nuances, em três abordagens principais:

A primeira delas nasce da definição de conhecimento não como um dado concreto, mas como um ideal abstrato a alcançar. Uma vez estabelecido este ideal, passa a ser o parâmetro para julgar toda a espécie de conhecimento produzido no mundo humano. A era moderna, com as fantásticas realizações da técnica na transformação da vida humana e no domínio da natureza, acabou por realizar o sonho dos filósofos positivistas de entronizar “a Ciência” como única fonte de conhecimento digna de crédito. O “método científico” foi escolhido como o parâmetro adequado para se conhecer e dominar o mundo, e toda a tentativa de conhecimento estabelecida à margem deste padrão foi desmoralizada, considerada imperfeita e pouco legítima.

Esta visão que entronizava “a Ciência” como “o método de conhecimento” estabelece a primeira das abordagens do problema do Jornalismo em relação ao conhecimento: para ela, o Jornalismo não produz conhecimento válido, e contribui apenas para a degradação do saber. São notáveis as observações do intelectual austríaco Karl KRAUS a este respeito, escritas no início do século: 

“O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa. Com o amolecimento cerebral do futuro, a causa não poderá mais ser determinada com segurança.(...) A imagem de que um jornalista escreve tão bem sobre uma nova ópera como sobre um novo regulamento parlamentar tem algo de acabrunhante. Seguramente, ele também poderia ensinar um bacteriologista, um astrônomo e até mesmo um padre. E se viesse a encontrar um especialista em matemática superior, lhe provaria que se sente em casa numa matemática ainda mais superior.” 

Kraus não representa um crítico isolado. Seu pensamento influenciou profundamente muitos outros intelectuais de respeito, como Walter Benjamin e os fundadores da Escola de Frankfurt. Apesar das críticas que este ponto de vista vem recebendo nos últimos anos, sua influência ainda pode ser constatada em grande parte da produção acadêmica contemporânea sobre o Jornalismo, que de uma forma ou de outra o situa no campo do conhecimento como uma ciência mal feita, quando não como uma atividade perversa e degradante.

Uma segunda forma de abordagem do Jornalismo enquanto conhecimento o situa ainda como uma ciência menor, mas admite já que não é de todo inútil. Pode-se utilizar como exemplo desta abordagem o ex-jornalista e sociólogo do conhecimento Robert Park, que publicou um artigo sobre o tema em 1940. A partir da perspectiva filosófica do pragmatismo de William James, que abandona o conhecimento como um ideal para observá-lo como um dado da vida humana, concluindo que as pessoas e as coletividades lidam simultaneamente em suas vidas com várias espécies de conhecimento, Park começa a definir o Jornalismo a partir do que tem de diferente, do que lhe é específico como forma de conhecimento da realidade.

Embora admita a distinção entre tipos de conhecimento, o sociólogo norte-americano não avança neste aspecto muito além do que James já havia realizado ao distinguir entre um “conhecimento de” utilizado no cotidiano e um “conhecimento sobre”, sistemático e analítico, como o produzido pelas ciências. Para situar o Jornalismo, Park vai propor a existência de uma gradação entre as duas espécies de conhecimento e colocar a notícia num nível intermediário entre elas.

Este tipo de diferenciação do Jornalismo a partir do grau de profundidade que alcança comparativamente à Ciência ou à História é admitida pelos próprios jornalistas. Ao fazerem comparações entre o seu trabalho e o dos cientistas, os jornalistas costumam sugerir esta forma de gradação. Quando não se refere à profundidade de análise, a gradação pode referir-se também à velocidade da produção, e o Jornalismo já foi definido como a História escrita à queima-roupa.

A comparação quantitativa dos atributos do Jornalismo em relação à Ciência ou à História pode ser útil para elucidar algumas das suas diferenças, mas parece insuficiente para definir o que ele tem de específico. Daí que tenha surgido uma terceira abordagem, que dá mais ênfase não ao que o Jornalismo tem de semelhante, mas justamente ao que ele tem de único e original. Para esta terceira abordagem, o Jornalismo não revela mal nem revela menos a realidade do que a ciência: ele simplesmente revela diferente. E ao revelar diferente, pode mesmo revelar aspectos da realidade que os outros modos de conhecimento não são capazes de revelar.

Além desta maneira distinta de produzir conhecimento, o jornalismo também tem uma maneira diferenciada de o reproduzir, vinculada à função de comunicação que lhe é inerente. O Jornalismo não apenas reproduz o conhecimento que ele próprio produz, reproduz também o conhecimento produzido por outras instituições sociais. A hipótese de que ocorra uma reprodução do conhecimento, mais complexa do que a sua simples transmissão, ajuda a entender melhor o papel do Jornalismo no processo de cognição social. Mas, para tornar aceitável esta terceira abordagem, é necessário compartilhar alguns dos seus pressupostos.

Pressupostos do Jornalismo como Conhecimento 

Além do pragmatismo que orientou Robert Park, diversas outras correntes teóricas oferecem bases de apoio não só para se aceitar como também para se definir a especificidade do Jornalismo enquanto conhecimento.

As epistemologias críticas, que nas últimas décadas têm se dedicado a desmistificar o preceito positivista da infalibilidade da Ciência, e a demonstrar o caráter cultural e histórico de toda a forma de conhecimento, contribuíram para destruir o ideal de uma verdade única e obrigatória, e principalmente para estabelecer os limites lógicos de qualquer reivindicação de objetividade. Ao relativizarem as verdades científicas, estas correntes críticas permitiram também a aceitação de outras verdades como eventualmente válidas e relativas, de acordo com os seus pressupostos e objetivos.

Contribuíram para esta nova visão o extraordinário desenvolvimento da compreensão das linguagens, também elas, enquanto produtos históricos e culturais. O estudo do discurso, que se interessa pela utilização concreta das linguagens, demonstrou que todo o enunciado que se refere à realidade, ao refletí-la de certa maneira, também necessariamente a refrata de certa maneira (BAKHTIN, 1929).

Por este caminho, procura-se distinguir a verdade que um enunciado pode conter da realidade mesma, a realidade referente que se encontra fora do enunciado. Falar de “a verdade”, enquanto substantivo, atributo coisificado, assim vai perdendo o sentido.  Mais apropriado será se falar no adjetivo, no enunciado “verdadeiro”. E poderão existir muitos enunciados verdadeiros, eventualmente até contraditórios entre si, ainda que cada um coerente com seus pressupostos, porque nenhum enunciado é capaz de esgotar a realidade inteira.

Os diferentes gêneros de discurso vão abordar a realidade de diferentes maneiras, definindo verdades diversas, cada uma pertinente a um objetivo ou a uma situação. Os argumentos validados num campo do saber poderão ser considerados absurdos em outro. Ao mesmo tempo, grande parte do que costuma ser considerado descoberto e sabido hoje, por nossa civilização, provavelmente é ignorado por nove entre dez seres humanos civilizados.

Os auditórios a que se dirigem os diferentes discursos também tornam mais complexa a questão do saber em nossa sociedade. A sociologia e a antropologia do conhecimento, ao se debruçarem sobre o cotidiano das pessoas comuns, e não apenas sobre os relatos dos sábios, reforçaram a idéia de que a metodologia científica não é o único modo de conhecer e provavelmente sequer o mais importante para a nossa sobrevivência individual e de nossa existência gregária. Diversos tipos de conhecimentos circulam em diversas redes sociais (BERGER & LUCKMANN, 1966). Essa descoberta não significa uma vitória do irracionalismo, que apontaria para o retorno a um mundo assombrado pelos demônios, como na Idade Média descrita por Carl Sagan. Pelo contrário, aponta para a necessidade de uma Razão mais refinada, que dê conta da extrema complexidade do mundo, que cada vez mais se expõe a nós e com isso desafia todos os nossos parâmetros.

Entre os fenômenos mais complexos com que nos deparamos hoje está o funcionamento do cérebro humano. O conhecimento sobre o cérebro tem avançado em progressão geométrica nas últimas décadas, e a noção da sua complexidade tem aumentado na mesma proporção. Já há algum tempo, pensadores como o pedagogo Paulo Freire vinham alertando para a evidência de que a abertura permanente é o que distingue o cérebro humano do cérebro dos animais. É essa abertura o que determina a nossa capacidade infinita de aprendizagem e o que nos faz superar continuamente qualquer obstáculo a esta aprendizagem, inclusive os estabelecidos por nós mesmos, como indivíduos ou como coletividade. As concepções fixas e os paradigmas estanques são alguns destes obstáculos que temos superado.

Paulo Freire também advertia para o fato de que o saber não pode ser transmitido. Observava que quando qualquer tipo de informação é comunicada de uma pessoa a outra com sucesso, isto implica que ela não foi apenas transferida, como seria de uma disquete para outra num computador, mas que foi re-conhecida pela pessoa que a recebeu. O cérebro humano não é um recipiente onde se possa depositar conhecimentos: a aprendizagem implica numa operação cognitiva, onde quem aprende tem um papel tão ativo quanto quem ensina. Assim, tanto quem ensina quanto quem aprende não se limitam a reproduzir um saber que existia anteriormente a seus atos, mas re-criam este conhecimento nos próprios atos de aprender e de ensinar. Desta forma, pode-se afirmar que o conhecimento não se transmite, antes se re-produz.

A moderna ciência cognitiva, que já conta com um conhecimento mais aproximado do funcionamento do cérebro, confirma esta intuição dos pedagogos: a comunicação está indissoluvelmente ligada à cognição (SPERBER & WILSON, 1986). Nosso equipamento cognitivo não registra nem arquiva informações tal qual as recebe, antes as processa, classifica e contextualiza, reconstruindo a informação recebida a partir de esquemas de interpretação e informações prévias sobre o tema, o emissor e a situação comunicativa. O esquema clássico da comunicação como a transferência mecânica de uma mensagem do emissor ao receptor, por meio de um processo singelo de codificação e descodificação, está completamente superado pelo conhecimento atual do cérebro humano. Para dar um só exemplo, a emoção, antes tão desprezada pelo ideal de objetividade científica, e classificada como “ruído” no ideal mecânico da comunicação de mensagens, vai aparecer agora como um combustível imprescindível à maquinaria da razão humana (DAMÁSIO, 1994).

A intensa pesquisa que vem sendo realizada no campo da inteligência artificial, no caminho de criar máquinas que pensem, tem contribuído também para elucidar de certa forma a maneira como nós pensamos, e mexe em nossos juízos de valor sobre o que seja a maneira mais correta de pensar.  Cada obstáculo encontrado pelo computador para fazer o que fazemos chama a atenção dos cientistas para um recurso a mais das nossas próprias mentes, e contribui para a elucidação de maneira cada vez mais sofisticada de seu funcionamento. Os técnicos do M.I.T., que desenvolvem máquinas inteligentes, surpreendem o mundo ao revelarem que são capazes de substituir especialistas em áreas tecnológicas de ponta para muitos procedimentos, mas não conseguem criar nada aproximado ao bom senso de uma criança de cinco anos.

O processo incessante de produção e re-produção do conhecimento depende não só do equipamento cognitivo dos indivíduos, mas também das possibilidades de socialização de suas experiências.  Por isso, cada vez mais se presta atenção no papel desempenhado pelas instituições e pelas tecnologias intelectuais disponíveis em cada sociedade e em cada cultura. Diversos autores têm demonstrado as mudanças ocorridas nas formas de pensar e de conhecer em conseqüência do surgimento da escrita, de sua reprodutibilidade através da imprensa e, mas recentemente, num processo que ainda estamos vivendo, da revolução eletrônica (GOODY, 1977; ONG, 1986; LÉVY, 1990).

Com tantas surpresas, com a descoberta de tantas limitações e ao mesmo tempo de tantas possibilidades novas no que já conseguimos saber, não é aconselhável descartar a priori qualquer das formas disponíveis de conhecer e re-conhecer o mundo, por mais limitada e singela que possa parecer. Daí a necessidade de se compreender melhor como funciona o Jornalismo como modo de conhecimento, e de investigar até que ponto ele não será capaz de nos revelar aspectos da realidade que não são alcançados por outros modos de conhecer mais prestigiados em nossa cultura.           

Características do Jornalismo como Conhecimento 

Ao utilizar a distinção entre “conhecimento de” e “conhecimento sobre”, o primeiro sintético e intuitivo, o segundo sistemático e analítico, dentro da tradição do pragmatismo, Robert PARK observa que o Jornalismo realiza para o público as mesmas funções que a percepção realiza para os indivíduos. Conforme Nilson LAGE (1992:14-5), o Jornalismo descende da mais antiga e singela forma de conhecimento – só que, agora, projetada em escala industrial, organizada em sistema, utilizando fantástico aparato tecnológico”.

Adelmo GENRO FILHO (1987:58), outro pesquisador brasileiro que se debruçou sobre esta questão, também ressalva que o Jornalismo como gênero de conhecimento difere da percepção individual pela sua forma de produção: nele, a imediaticidade do real é um ponto de chegada, e não de partida. Esta ressalva é importante para se discutir os problemas do Jornalismo como forma de conhecimento e de seus efeitos. No entanto, ao se fixar na imediaticidade do real, o Jornalismo opera no campo lógico do senso comum, e esta característica definidora é fundamental.

A partir dela, pode-se questionar até que ponto o Jornalismo como modo de conhecimento pode ser rigoroso. O conhecimento do senso comum foi até bem pouco tempo desprezado pela teoria, uma vez que toda a ciência moderna se constituiu com base na sua negação. Mas, na medida em que as ciências humanas passaram a valorizar a observação do cotidiano para o desvendamento das relações sociais, o que era visto como "irrelevante, ilusório e falso" começou a aparecer não só como um objeto digno de consideração pela teoria do conhecimento mas, em última análise, como o seu objeto principal (SANTOS, 1988:8).

Conforme BERGER & LUCKMANN (1966:40), o senso comum corresponde a uma atitude cognitiva percebida como natural. "A atitude natural é a atitude da consciência do senso comum precisamente porque se refere a um mundo que é comum a muitos homens. O conhecimento do senso comum é o conhecimento que eu partilho com os outros nas rotinas normais, evidentes da vida cotidiana". Além disso, a atitude cognitiva natural estabelece uma certa percepção da realidade como dominante:

"Comparadas à realidade da vida cotidiana, as outras realidades aparecem como campos finitos de significação, enclaves dentro da realidade dominante marcada por significados e modos de experiência delimitados. A realidade dominante envolve-as por todos os lados, por assim dizer, e a consciência sempre retorna à realidade dominante como se voltasse de uma excursão”. "Todos os campos finitos de significação caracterizam-se por desviar a atenção da realidade da vida cotidiana. (...) É importante, porém, acentuar que a realidade da vida cotidiana conserva a sua situação dominante mesmo quando estes 'transes' ocorrem. Se nada mais houvesse, a linguagem seria suficiente para nos assegurar sobre este ponto. A linguagem comum de que disponho para a objetivação de minhas experiências funda-se na vida cotidiana e conserva-se sempre apontando para ela mesma quando a emprego para interpretar experiências em campos delimitados de significação" (BERGER & LUCKMANN, 1966:43-4).

É o fato de operar no campo lógico da realidade dominante que assegura ao modo de conhecimento do Jornalismo tanto a sua fragilidade quanto a sua força enquanto argumentação. É frágil, enquanto método analítico e demonstrativo, uma vez que não pode se descolar de noções pré-teóricas para representar a realidade. É forte na medida em que essas mesmas noções pré-teóricas orientam o princípio de realidade de seu público, nele incluídos cientistas e filósofos quando retornam à vida cotidiana vindos de seus campos finitos de significação. Em conseqüência, o conhecimento do jornalismo será forçosamente menos rigoroso do que o de qualquer ciência formal mas, em compensação, será também menos artificial e esotérico.

Evidentemente, como todo conhecimento, o senso comum não é tão democrático como sugere o termo. O conhecimento é repartido socialmente, devido ao simples fato do indivíduo não conhecer tudo o que é conhecido por seus semelhantes, e vice-versa, processo que culmina em sistemas de perícia extraordinariamente complexos. A distribuição social de conhecimentos, desta forma, não se dá apenas em termos quantitativos (uns conhecem mais do que outros), mas também qualitativos (conhecem coisas diferentes). Cada campo de conhecimento é compartilhado por um auditório específico. A questão dos auditórios, assim como a dos campos lógicos, estabelece diferenças entre o modo de conhecimento das ciências e do Jornalismo.

A linguagem formal dos cientistas justifica-se por sua universalidade, a universalidade ideal de seu auditório. Porém, esta universalidade será igualmente formal, uma universalidade de direito, mas não de fato, uma vez que esta linguagem só circula por determinadas redes e cria uma incomunicação crescente entre os dialetos das diversas especialidades. Neste sentido, quanto mais as ciências produzem conhecimento, mais tornam opaco este conhecimento (VIEIRA PINTO, 1969:165-6). Para penetrar nesta opacidade, é necessário também penetrar na rede institucional que a mantém, através dos processos pedagógicos específicos.

Já o ideal de universalidade do Jornalismo caminha em outra direção. O auditório universal que idealmente persegue refere-se a uma outra rede de circulação de conhecimento, constituída pela comunicação para devolver à realidade a sua transparência coletiva. É uma universalidade de fato, embora precária, porque só estabelecida institucionalmente de forma indireta e imperfeita, tal e qual o espaço público pressuposto pelo ideal democrático que a precede e a requer. Sua amplitude é também limitada em outra direção, a intenção do emissor na delimitação do universo do público alvo. Mas é na preservação deste auditório ideal que o Jornalismo encontra uma de suas principais justificações sociais: a de manter a comunicabilidade entre o físico, o advogado, o operário e o filósofo. Enquanto a ciência evolui reescrevendo o conhecimento do senso comum em linguagens formais e esotéricas, o Jornalismo trabalha em sentido oposto.

Além da questão do rigor, outra crítica que comumente se faz ao Jornalismo é a de que ele não seria tão capaz de revelar o novo como a ciência. Partindo de premissas retiradas necessariamente do senso comum, a argumentação da notícia parte do que o auditório já sabia, ou era suposto saber. "Se o avião caiu, é claro que existia o avião e que o avião pertence à categoria das coisas capazes de cair" (LAGE, 1979:41). Em virtude disto, a novidade contida numa notícia é limitada. Como propõe VAN DIJK (1980:176), esta novidade "é a ponta de um iceberg de pressuposições e, em consequência, da informação previamente adquirida”.

Esta constatação sugere que o conhecimento proporcionado pelo Jornalismo tem um duplo papel na construção do senso comum, em que a revelação da novidade refere-se a apenas um aspecto. A compreensão da notícia envolve o processamento "de grandes quantidades de informação estruturadora, repetida e coerente, que sirva como base para ampliações mínimas e outras mudanças em nossos modelos do mundo" (VAN DIJK, 1980:248). O Jornalismo serve ao mesmo tempo para conhecer e reconhecer.

Por outro lado, a revelação da novidade é um dado estrutural da retórica do Jornalismo - a conclusão a que conduz a sua argumentação. A forma com que chega a esta novidade também é diferente daquela utilizada pela ciência. Enquanto a ciência, abstraindo um aspecto de diferentes fatos, procura estabelecer as leis que regem as relações entre eles, o Jornalismo, como modo de conhecimento, tem a sua força na revelação do fato mesmo, em sua singularidade, incluindo os aspectos forçosamente desprezados pelo modo de conhecimento das diversas ciências.

Como propusemos em trabalho anterior, no método científico a hipótese pressupõe uma experimentação controlada, isto é, um corte abstrato na realidade através do isolamento de variáveis que permita a obtenção de respostas a um questionamento baseado em sistema teórico anterior. O Jornalismo, por sua vez, não parte de uma hipótese nem de sistema teórico anterior, mas da observação não controlada (do ponto de vista da metodologia científica) da realidade por parte de quem o produz. Também se diferencia das ciências pelo tipo de corte abstrato que propõe. O isolamento de variáveis é substituído pelo ideal de apreender o fato de todos os pontos de vista relevantes, ou seja, em sua especificidade (MEDITSCH, 1990:72).

GENRO FILHO (1987:163) apóia-se nas categorias hegelianas do universal, particular e singular para definir o modo de conhecimento produzido socialmente pelo Jornalismo:

"...o critério jornalístico de uma informação está indissoluvelmente ligado à reprodução de um evento pelo ângulo de sua singularidade. Mas o conteúdo da informação vai estar associado (contraditoriamente) à particularidade e universalidade que nele se propõem, ou melhor, que são delineados ou insinuados pela subjetividade do jornalista. O singular, então, é a forma do Jornalismo, a estrutura interna através da qual se cristaliza a significação trazida pelo particular e o universal que foram superados. O particular e o universal são negados em sua preponderância ou autonomia e mantidos como o horizonte do conteúdo”.

A cristalização no singular explica também como o Jornalismo consegue produzir informação nova com uma grande economia de meios em relação aos outros modos de conhecimento: "Como o novo aparece sempre como singularidade, e esta sempre como o aspecto novo do fenômeno, a tensão para captar o singular abre sempre uma perspectiva crítica em relação ao processo. A singularidade tende a ser crítica porque ela é a realidade transbordando do conceito, a realidade se recriando e se diferenciando de si mesma" (GENRO FILHO, 1987:212).    

Pode-se assim chegar mais perto do que seria uma fisiologia normal do Jornalismo como forma de produção e reprodução de conhecimento. É possível, como propõe LAGE (1979:37), isolar teoricamente "uma organização relativamente estável", dissociando esse "componente lógico" das ideologias que inevitavelmente o contaminam na realidade concreta - o "componente ideológico" que caracteriza a patologia diagnosticada pelos seus críticos, para encontrar a sua especificidade, uma vez que a ideologia é um fenômeno social mais geral.

Ao mesmo tempo, este esboço de sua fisiologia permite constatar que o Jornalismo não é uma "ciência mal feita", simplesmente porque não é uma ciência e nem pode aspirar a ser tal. Por um lado, o Jornalismo como forma de conhecimento é capaz de revelar aspectos da realidade que escapam à metodologia das ciências (a ciência exclui o singular, cf. ATLAN in PESSIS-PASTERNAK, 1991:72); por outro, é incapaz de explicar por si mesmo a realidade que se propõe a revelar. "O universo das notícias é o das aparências do mundo; o noticiário não permite o conhecimento essencial das coisas, objeto do estudo científico, da prática teórica, a não ser por eventuais aplicações a fatos concretos. Por trás das notícias corre uma trama infinita de relações dialéticas e percursos subjetivos que elas, por definição, não abarcam" (LAGE, 1985b:23).

Por fim, é preciso ressaltar que o conteúdo do jornalismo, ao estar preso ao senso comum, está também necessariamente vinculado a um contexto. O texto só adquire sentido dentro de um contexto. Isto dificulta tanto a sistematização quanto a acumulação destes conteúdos, contrariamente ao que ocorre com a ciência que isola o texto do contexto. Mas, neste sentido, o conhecimento produzido pelo jornalismo é mais sintético e mais holístico do que aquele produzido pela ciência.

Problemas do Jornalismo enquanto Conhecimento

Embora nesta perspectiva se considere que o Jornalismo produz e reproduz conhecimento, não apenas de forma válida, mas também útil para as sociedades e seus indivíduos, não se pode deixar de considerar que esse conhecimento por ele produzido tem os seus próprios limites lógicos e, quando observado na prática, apresenta também uma série de problemas estruturais. Como toda outra forma de conhecimento, aquela que é produzida pelo Jornalismo será sempre condicionada histórica e culturalmente por seu contexto e subjetivamente por aqueles que participam desta produção. Estará também condicionada pela maneira particular como é produzida.

Nas últimas décadas se multiplicaram os trabalhos científicos que salientam o fato do Jornalismo não ser uma imagem da realidade extraída unicamente desta realidade, mas sim uma construção onde os projetos, as técnicas e seu manejo, as ferramentas e as matérias primas também interferem no produto final (TRAQUINA, 1993). Inúmeras mediações condicionam o modo como o Jornalismo cria e processa a informação sobre a realidade, desde o schemata profissional  (MÉRÓ, 1990) - o modo particular como os jornalistas vêem o mundo, passando pelos objetivos, a estrutura e a rotina das organizações onde trabalham, as condições técnicas e econômicas para a realização de suas tarefas e, finalmente, o jogo de poder e os conflitos de interesses que estão inextricavelmente implicados na circulação social desta informação (MESQUITA, 1995).

Um dos principais problemas do Jornalismo como modo de conhecimento é a falta de transparência destes condicionantes. A notícia é apresentada ao público como sendo a realidade e, mesmo que o público perceba que se trata apenas de uma versão da realidade, dificilmente terá acesso aos critérios de decisão que orientaram a equipe de jornalistas para construí-la, e muito menos ao que foi relegado e omitido por estes critérios, profissionais ou não. Neste ponto, a proliferação recente da instituição do provedor de leitores – o ombudsman – é certamente um progresso, não apenas pelo que possa discutir diretamente da produção dos media, mas também por contribuir para levantar o véu que encobre os procedimentos habituais de construção da informação jornalística.

Outro aspecto problemático do jornalismo enquanto conhecimento é a velocidade de sua produção. No entanto, ao mesmo tempo em que a velocidade representa um limite, representa também uma vantagem em relação a outros modos de conhecimento. A velocidade não é uma característica exclusiva do jornalismo, mas sim da civilização em que vivemos que, por funcionar assim, necessita de informações produzidas rapidamente.

E, por fim, não poderíamos deixar de citar a espetacularização como um aspecto problemático do jornalismo como conhecimento. O que distingue uma matéria jornalística de um relato científico, de um texto didático ou de um relatório policial é o fato de que se dirige a pessoas que não tem obrigação de ler aquilo. Em consequência, procura de alguma forma aliciar as pessoas para que se interessem por aquela informação, através de técnicas narrativas e dramáticas. Isto não é um mal em si, o uso destas técnicas se justifica amplamente pela eficácia comunicativa e cognitiva que proporcionam. O problema é quando passam a ser utilizadas em função de objetivos que não os cognitivos, como a luta comercial por audiência e o esforço político de persuasão. No cotidiano do jornalismo praticado em nossas sociedades, é muito difícil distinguir entre estes três tipos de objetivo.

Efeitos do Jornalismo enquanto Conhecimento

Concretamente, muito pouco se sabe sobre os efeitos do Jornalismo sobre os indivíduos ou as sociedades. Existem várias hipóteses a este respeito, mas é muito difícil isolar as variáveis de forma a testá-las para fins de comprovação (SAPERAS, 1987). É inegável que os meios de comunicação tem um poder muito grande no meio social, mas é difícil determinar até que ponto este poder é exercido de forma autônoma e até que ponto funciona apenas como instrumento de outros poderes instituídos. Muitos dos pecados atribuídos ao Jornalismo, inclusive pelas teorias e hipóteses que tentam explicar as suas consequências, na verdade têm causas enraizadas em solos mais profundos. A manipulação do sistema democrático, a disparidade crescente entre o topo e a base das sociedades, a disseminação dos preconceitos, estereótipos e ideologias dos poderosos não são criações do Jornalismo, embora ele eventualmente participe de tudo isso. Como produto social, o Jornalismo reproduz a sociedade em que está inserido, suas desigualdades e suas contradições. Nenhum modo de conhecimento disponível está completamente imune a isto.

Também é bastante difícil isolar os efeitos do Jornalismo sobre o ambiente cognitivo dos indivíduos. Quando tiram os olhos do jornal ou da TV, ou desligam o rádio, as pessoas encontram inúmeros outros pontos de contato com a realidade, ligam-se em incontáveis outras redes de informação que funcionam à margem dos media e, com isso, amadurecem seus critérios de discernimento (SOUSA,1995). O Jornalismo eventualmente pode desinformar as pessoas, mas certamente também lhes ensina muita coisa útil. Sabe-se que uma pessoa com formação superior tira mais proveito das notícias do que uma pessoa privada da escola básica. Mais uma vez, não se pode culpar o Jornalismo por isso.

Conclusão: a Pertinência do Jornalismo enquanto Conhecimento

Considerados estes prós e contras, pode-se enfim discutir se há alguma pertinência em se considerar o Jornalismo como forma de conhecimento de direito próprio, ao invés de um simples instrumento para transmitir conhecimentos produzidos por outrem e eventualmente, com isso, degradar estes saberes. Com todo o respeito pelas opiniões divergentes, procurei responder a pergunta que me apresentaram de maneira afirmativa, suprimindo o seu ponto de interrogação.

Teoricamente, procurei demonstrar que o que pode sustentar esta pertinência não são os argumentos dos jornalistas, mas sim os desenvolvimentos recentes nas áreas da epistemologia, teoria do discurso, sociologia do conhecimento e psicologia da cognição, disciplinas que possuem um respeitável embasamento científico e filosófico.

Creio que na prática pode-se apontar mais algumas razões para se levar mais a sério esta questão. Ao se deixar de considerar o jornalismo apenas como um meio de comunicação para considerá-lo como um meio de conhecimento, estará se dando um passo no sentido de aumentar a exigência sobre os seus conteúdos. Conhecimento implica em aperfeiçoamento pela crítica e requer rigor.

Considerar o jornalismo como modo de conhecimento implica também em aumentar a exigência sobre a formação profissional dos jornalistas, que deixam de ser meros comunicadores para se transformarem em produtores e reprodutores de conhecimento.

Por fim, o conhecimento da realidade é uma questão tão vital para os indivíduos e para as sociedades que, se o jornalista não é apenas quem o comunica, mas também quem o produz e o reproduz , deve estar submetido a um controle social e a uma avaliação técnica mais próxima e mais permanente. A questão do conhecimento que o jornalismo produz e reproduz e de seus efeitos pode ser demasiado estratégica para a vida de uma sociedade para ser controlada exclusivamente pelos jornalistas como grupo profissional ou pelas organizações onde trabalham.


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Desmistificando o velho paradigma 

Jornalismo não se divide

em OPINIÃO e INFORMAÇÃO

Manuel Carlos Chaparro*

 

Em 11 de Maio de 1702, o jornal inglês The Daily Courant veio ao mundo para ser o primeiro diário de natureza política, na Europa. Só 75 anos depois surgiria o Journal de Paris, primeiro diário francês. Na América, o Pensylvania Packet apareceria ainda mais tarde, em 1784. No universo da língua portuguesa, o primeiro jornal diário foi o Diário Lisbonense, lançado em 1809. E no Brasil, a imprensa diária começou com o Diário do Rio de Janeiro, em 1821. A importância do Courant, porém, vai além das datas: ganhou fama e lugar na história da imprensa por causa de uma inovação criada por Samuel Buckley, seu diretor. 

Mesmo que sem tal intenção, Buckley introduziu no jornalismo o conceito da objetividade, tornando-se o primeiro jornalista a preocupar-se com o relato preciso dos fatos, tratando as notícias como notícias, sem comentários. Em meio à crise financeira que ameaçou o Courant logo nos seus primeiros tempos de existência, Elizabeth Mallet, fundadora do diário, chamou Buckley e lhe confiou a missão de salvar o jornal. É o que nos conta Olson. O novo diretor criou uma estratégia e um estilo que influenciariam todo o jornalismo mundial: separou as notícias dos artigos - news em um lado, preponderantes, comments em outro, para não "contaminar" as informações, porque "os leitores são capazes de refletir por eles próprios". 

A decisão criativa de Buckley ocorreu numa época moralmente conturbada da monarquia britânica. Depois de ter reinado alguns anos sozinho, o viúvo Guilherme III abdicou quando corria o ano de 1702, e entregou o trono à cunhada Ana. Assim, no ano de nascimento do Courant, assumia o reino uma rainha de legitimidade duvidosa, que governou até 1714. No período seguinte, as coisas não melhoraram. Os Lordes e os Comuns daquele tempo preferiam não ter reis competentes. E por isso, para substituir Ana, foram buscar à Alemanha, em 1714, alguém com remoto direito ao trono, "o eleitor de Hanôver", e o fizeram rei, sob o nome de Jorge I (1714-27). Não falava inglês, só alemão. E de servidores alemães, e - diz a História - de "um enxame de mulheres alemãs" encheu a corte inglesa. Um período obscuro e de alheamento desceu sobre a vida intelectual e política do país, e disso se beneficiavam os grandes comerciantes e os senhores da terra, que sustentavam a situação. 

Ao mesmo tempo, porém, as teorias de John Locke, falecido em 1706, singravam nos movimentos revolucionários, em crescendo, espalhando as idéias liberais que haveriam de mudar o mundo. E nesse ambiente contraditório, a imprensa inglesa procurava caminhos de sobrevivência, no ciclo de crises em que se deu a transferência do controle dos jornais, dos impressores para os livreiros, processo do qual o Daily Courant não escapou. Os problemas do Daily Courant eram diferentes dos de outros jornais, periódicos semanais ou de periodicidade mais dilatada. O Courant nasceu para noticiar as ocorrências do mundo político, entre as quais tinham relevância maior as notícias das chamadas "Guerras de Malborough". O duque de Malborough, general Juan Churchill (1650-1722), passou mais de vinte anos em guerras sucessivas, à frente das tropas inglesas, depois que, em 1690, foi encarregado por Guilherme III de submeter a rebelde Irlanda. As glórias militares fizeram dele o homem mais influente da Inglaterra durante o reinado de Ana, período em que o duque militar, em nome da rainha, declarou e aceitou guerras com diversos países europeus, entre eles a França, a Alemanha e os Países Baixos. As "guerras de Malbourogh" foram o grande assunto na Inglaterra entre 1702 e 1716, ano em que o duque caiu em desgraça. 

Por ter assumido o compromisso de relatar diariamente os fatos, em especial os das guerras, o Courant não poderia ser um jornal igual aos outros. E não há como negar a genialidade de Buckley ao pressupor que a lógica das interações com o leitor teria que ser outra. Mas, no entendimento de Anthony Smith, um detalhe criava "enormes riscos": a estratégia noticiosa dava ao jornal uma "aparência prolífera", sem comentários, o que talvez não correspondesse às expectativas de leitores, altamente interessados nas preliminares e no desenvolvimento das guerras de Malborough. Podemos supor que Samuel Buckley pretendia agregar ao seu jornal uma imagem de credibilidade e independência, como condição de sucesso. 

O que se sabe da experiência do Daily Courant permite admitir que os cuidados maiores eram com a apuração dos factos, principalmente no que toca ao rigor na escolha das fontes. Ao comentar as virtudes do jornalismo do Courant, Smith usa a palavra acurácia (accuracy), termo que a cultura jornalística tomou emprestado da Matemática e da Física para definir a virtude vital da informação: exatidão garantida pelo rigor dos procedimentos de apuração e verificação. E cita depoimento de James Perry, um dos editores do jornal, que falava da sua preocupação com a credibilidade das fontes, para garantir substância ao relato dos fatos, "sem comentários ou conjecturas", na suposição de que o público leitor tem capacidade para "elaborar suas próprias reflexões". 

O Daily Courant pode não ter conseguido o sucesso pretendido por Buckley, numa época em que o Artigo iniciava um longo ápice, como classe de texto predominante na imprensa. Mas, no campo da linguagem, certamente ofereceu valiosa contribuição à evolução do jornalismo - não por causa da credibilidade resultante da impossível separação entre opinião e informação, mas devido à eficácia resultante do rigor dos conteúdos e da clareza pedagógica que acontece na organização de textos e espaços quando se separam os artigos (comentários) das notícias (relatos).

Ilusão da objetividade 

O Daily Courant desapareceu em 1735. Mas o modelo criado resistiu ao tempo. No campo da teoria, sobre a experiência criada por Buckley, a cultura jornalística criou o paradigma que até hoje divide o jornalismo em Opinião e Informação. A rigor, talvez não se trate de um paradigma, ao menos na significação científica do termo e no sentido que Kuhn lhe atribui, ao propor a teoria de revoluções científicas. Embora a dicotomia Opinião x Informação se tenha transformado, pela tradição, em espécie de matriz que há quase três séculos regula convicções conceituais que organizam e explicam o jornalismo, o modelo de Buckley, enquanto descoberta, nem pretensão científica teve. Já o contexto da justificação, engendrado pelos pensadores do jornalismo, acabou por criar uma "lei" que produziu especialistas, encheu livros e consolidou raízes, tanto nas redações quanto nos meios acadêmicos. Além do mais, o termo paradigma migrou da cultura científica para o espaço do senso comum, como sinônimo de modelo padrão. E isso também legitima o seu uso, aqui. Dogmatizado o paradigma, desenvolveram-se, como valores definitivos, conceitos que iludem os leitores, como esse de levá-los a acreditar que a paginação diferenciada dos artigos garante notícias com informação purificada, livre de pontos de vista, produzida pela devoção à objetividade. Como se tal fosse possível, e até desejável. 

O paradigma Opinião x Informação tem condicionado e balizado, há décadas, a discussão sobre gêneros jornalísticos, impondo-se como critério classificatório e modelo de análise para a maioria dos autores que tratam do assunto. A conservação dessa matriz reguladora esparrama efeitos que superficializam o ensino e a discussão do jornalismo e tornam cínica a sua prática profissional. Trata-se de um falso paradigma, porque o jornalismo não se divide, mas se constrói com informações e opiniões. Além de falso, está enrugado pela velhice de três séculos. Depois do Daily Courant e de Samuel Buckley, várias revoluções culturais, políticas e tecnológicas mudaram a sociedade e as interações humanas, impondo adequações aos saberes e fazeres jornalísticos. Nessa evolução, há mais de um século que o jornalismo deixou de se expressar apenas por notícias e artigos. Nos últimos cem anos, a reportagem, por exemplo, tornou-se a forma discursiva predominante em jornais e revistas. "A maioria do que se publica em um jornal é reportagem", diz Vivaldi (1986, 382), e as pesquisas realizadas para este projeto o confirmam. 

Além disso, surgiram e desenvolveram-se a entrevista e o fotojornalismo, técnicas de relato cuja eficácia, tal como acontece na reportagem, está na aptidão de associar os fatos às idéias, os dados às emoções, os acontecimentos à reflexão, os sintomas ao diagnóstico, a observação à explicação, o pressuposto à observação. O próprio desenvolvimento da diagramação e da infografia, com a utilização dos modernos recursos electrônicos de edição gráfica, cria e amplia campos de relação interativa, dialética, entre a informação e a opinião. E disso resultam ganhos significativos para a apreensão e/ou a atribuição de significados na realidade, entendida, na sua totalidade, como sinônimo de mundo, espaço do que existe e acontece, e do que falta e não acontece. 

Não há como ajustar as formas discursivas do jornalismo ao critério que divide os textos em informativos e opinativos - até por serem coisas de esferas diferentes: na teoria dos gêneros, a divisão dos textos em classes e tipos (artigo, notícia, reportagem, entrevista, crônica...) resulta da diversidade nas estruturas externas, identificando formas; já as propriedades informativas e opinativas das mensagens são como que substâncias na natureza do jornalismo, no sentido em que se constituem suportes que permanecem na totalidade da ação jornalística, quer se relate ou se comente a atualidade. A apuração e a depuração, indispensáveis ao bom relato, são intervenções valorativas, intencionadas por pressupostos, juízos, interesses e pontos de vista estabelecidos. Como noticiar ou deixar de noticiar algum fato sem o componente opinativo? Por outro lado, o comentário - explicativo ou crítico - será ineficaz se não partir de fatos e dados confiáveis, rigorosamente apurados. 

Não existem, pois, espaços exclusivos ou excludentes para a opinião e a informação, o que torna ingênuo e inútil o paradigma criado a partir das experiências de Buckley, como base classificatória para as classes e espécies de texto, no jornalismo. No plano do conhecimento, é a opinião que conserva ou destrói, que preserva ou transforma. A inserção da opinião no conhecimento, como parte contraditória, discute-se na Filosofia desde Sócrates, para quem as opiniões divorciadas do conhecimento eram coisas feias. Em notável ensaio, desenvolvido no campo da teoria literária, Kermode (1991, 69-92) tentou desconstruir esse conjunto, analisando-o como paradoxo, para isolar oposições. Mas, ao final, reconhece que não é possível nem conveniente fazê-lo: 

"O que importa é o fato de deverem continuar a existir maneiras de induzir estas formas de atenção ,mesmo que no fim se encontrem todas na dependência da opinião. (...) Como acredito nisto, deduzir-se-á que não consegui distinguir o conhecimento da opinião, ou mesmo aquilo que se encontra estabelecido porque está certo, daquilo que está certo apenas porque estabelecido." 

Kermode deixa clara a atitude intelectual de rejeição a paradigmas racionalistas tendentes a isolar e a controlar a opinião. "O que é alguma coisa senão o valor que lhe atribuímos?" - pergunta. E finca âncoras de argumentação num certo "anarquismo epistemológico", quando admite, por exemplo, "que toda a observação se encontra dependente do pressuposto teórico", e que "tal pressuposto deve variar de época para época, de uma comunidade de interpretação para outra, e mesmo de indivíduo para indivíduo". Significa isso admitir o que algumas correntes da filosofia da ciência sustentam: que até nas ciências naturais a verdade científica depende da teoria. 

O que é a teoria? Uma opinião. E se admitirmos - o raciocínio é de Kermode - que "as teorias são o que qualquer um pode ter", então, "a verdade científica é também uma questão de opinião". A opinião, parte menor mas indispensável do conhecimento, constrói memória e esquecimento, o lado privilegiado e o lado marginal dos processos da continuidade. "É a grande criadora de cânones", verdades e certezas expandidas pela repetição, até que a conversação dos intérpretes descubra "significados originais até ali ocultos". Mesmo os estóicos, como lembra Kermode, precisaram da opinião para setenciar que a opinião é sempre e inteiramente má. Frank Kermode estimula a convicção de que até o mito da objetividade, sendo uma opinião, produz subjetividades e delas se nutre. E se assim é na ciência, assim é no jornalismo. 

Escola espanhola 

A função qualitativa de maior relevância no jornalismo é a de atribuir valor às coisas. Sem intervenção valorativa não há ação jornalística, e isso aprende-se também com Martinez Albertos (1992, 288), quando define Notícia: "É um facto verdadeiro, inédito ou atual, de interesse geral, que se comunica a um público que pode ser considerado massivo, desde que haja sido colhido, interpretado e valorado (grifo nosso) pelos sujeitos promotores que controlam o meio utilizado para a difusão" - que vêm a ser os jornalistas. Ele chega a escrever que "a função valorativa é absolutamente própria e específica, em todos os níveis, do exercício do jornalismo: no plano do recolhimento das notícias (...), no plano da análise e organização das notícias (...) e no plano do ajuizamento e comentário dessas mesmas notícias". 

Deve-se atribuir a Albertos o mérito de ser, entre os estudiosos da disciplina de gêneros jornalísticos, quem de forma mais criativa lida com o paradigma anglo-saxônico. Quase o rejeita, com a sua proposta de inserir, com valorização acentuada, os gêneros interpretativos entre os informativos e os opinativos. Chega a escrever, sem ambigüidades, que a sua proposta de gêneros jornalísticos contém uma revisão questionadora da "doutrina tradicional, de inspiração anglo-saxónica, em cuja virtude as disposições admissíveis em todo o fazer jornalístico tinham uma destas finalidades: a transmissão de dados objetivos ou a emissão de juízos de valor acerca dos acontecimentos de atualidade. Os textos resultantes da primeira atitude se denominavam relatos (stories), enquanto os que respondiam ao segundo dos objetivos recebiam o nome de artigos de opinião (comments)". 

A revisão proposta por Albertos estabelece um nível interpretativo para o relato jornalístico, intermediário entre a informação e a opinião. E agrega complexidade à questão, ao caracterizar cada agrupamento por um modo próprio de escritura: a narração e a descrição para os fatos (informação); a exposição quando, para a análise, é preciso associar fatos e razões (interpretação); e a argumentação para quando, na persuasão, as razões devem produzir idéias (opinião). Outra inovação do seu esquema é a relação entre a atitude (que poderíamos entender por intenção) de quem escreve e a função do gênero. No seu esquema, ao mesmo tempo que cria um espaço de liberdade para as duas classes de texto interpretativo (Reportagem interpretativa e Crônica), Albertos isola com fronteiras rígidas, sem porosidades, a informação objetiva e a opinião. E em relação à opinião, a radicalidade se acentua: deve ser "confinada quase religiosamente na seção editorial". Podemos até relevar, como coisa menor, o paradoxo que cria a possibilidade de elaborar notícias sem juízos de valor (explícitos ou implícitos) numa cultura, a do jornalismo, caracterizada pela essencialidade da função valorativa. Mas não é possível aceitar que a interpretação possa constituir-se categoria independente no jornalismo, reduzida a dois gêneros que Albertos considera híbridos. 

Há, aí, uma agressão ao conceito. Interpretação é um processo complicado de atribuição de significados, e vai além do autor, porque aos leitores cabe dar sentido aos textos. Não há texto sem intenção nem leitura sem atribuição de sentidos. E nessa interação entre intenções de autoria e intenções de leitura, talvez até os principais intérpretes sejam os que lêem, não os que escrevem. Umberto Eco sugere que, entre a intenção do autor (que ele considera "freqüentemente irrelevante para a interpretação de um texto") e a intenção do intérprete (leitor), existe a intenção do texto. 

Talvez se possa dizer que essa terceira possibilidade é a que organiza e dinamiza o todo interpretativo do jornalismo, cujos textos relatam ou comentam uma realidade que é a dos leitores, mas reelaborada, por critérios jornalísticos, com dados, fatos, depoimentos e pontos de vista colhidos em fontes interessadas. As fontes também inserem, nessa macrointerlocução, pontos de vista e elementos interpretativos, que a mediação crítica organiza para a difusão social. E tudo isso interage, na construção de um fenômeno a que poderíamos chamar polissemia de conteúdos, do qual nem as notícias nem os artigos podem ser excluídos. A interpretação que Albertos nos propõe limita-se à construção literária, em dois tipos de texto, e à capacidade jornalística de compreender e explicar a atualidade. Fontes e leitores são agentes passivos, sujeitos esquecidos. Gomis (1991, 38), autor também importante da escola espanhola, entende a questão de maneira diferente. Para ele, o jornalismo, no seu todo, "é um método de intepretação sucessiva da realidade social". 

Gutierrez Palacio (1984, 17) trabalha igualmente com o conceito de que o jornalismo é "um método de interpretação". E explica por quê: "Primeiro, porque escolhe entre tudo o que se passa aquilo que considera ‘interessante’. Segundo, porque traduz a uma linguagem inteligível cada unidade que decide isolar (notícia) e, além disso, distingue nela o que é mais interessante (...) e o que é menos interessante. Terceiro, porque, além de comunicar as informações assim elaboradas, trata também de situá-las e ambientá-las para que se compreendam (reportagem, crônica), e de explicá-las e julgá-las (editorial e, em geral, comentários)." 

E vale a pena retornar a Kermode, para sustentarmos o entendimento de que a opinião, conectada aos pressupostos do conhecimento ou da tradição, anima o contexto interpretativo do jornalismo: "Aqueles elos e cruzamentos infinitos de significados, aquelas condensações e deslocações a que a interpretação normativa dá importância, são tantos quantos os que se podem encontrar no mundo da criação (...). O mito que sustenta esta interminável conversação de intérpretes é, em síntese, o do significado ilimitável de um mundo de texto, um mundo de verdade a que a opinião aspira." 

O mundo de verdade que dá significação ao texto é um mundo de ajustamentos dinâmicos, em contextos reais, com múltiplos sujeitos (todos interessados) e muitas verdades - verdades de quem escreve, de quem lê, de quem informa, de quem comenta, de quem fala, de quem ouve... Há uma estratégia dialética de interações, em que cada partícipe entra com as aspirações criadas pela respectiva opinião. E a interpretação dá-se por acordos e conflitos, por compreensão e incompreensão, por rejeições e aceitações, por desconfianças e crenças. É em sua totalidade interpretativa que o jornalismo se realiza como espaço e processo cultural. 

Proposta brasileira 

No ambiente da língua portuguesa, a obra mais importante sobre gêneros jornalísticos é de José Marques de Melo. Trata-se de estudo publicado em 1985 (reeditado em 1994 sem alterações substanciais), no qual o autor propõe uma classificação que reafirma o paradima anglo-saxônico, dividindo os textos jornalísticos nas categorias Informação e Opinião. A relação de lógica classificatória, hierárquica, entre categoria e gênero, Melo a justifica pela evolução histórica do jornalismo, da qual resultou a "necessidade sociopolítica de distinguir os factos (news/stories) das suas versões (comments), ou seja, delimitar os textos que continham opiniões explícitas". 

A originalidade da proposta de Marques de Melo está nos critérios que usa para estabelecer sua proposta de classificação. Ele entende, preliminarmente, que um gênero jornalístico se caracteriza pela "conjunto das circunstâncias que determinam o relato que a instituição jornalística difunde", rejeitando critérios de autores (como Luiz Beltrão) que identificam gêneros com base nos códigos em que a mensagem se expressa. Para exemplificar, escreve Marques de Melo: "(...) a fotografia ou o desenho são perfeitamente identificáveis como notícias (quando apreendem a faceta privilegiada de um fato), como complemento de notícias (e aí a notícia é compreendida como uma estrutura articulada entre texto e imagem) ou como reportagem (quando as imagens são suficientes para narrar os acontecimentos)". Aceita como válida, porém, "a autonomia da opinião ilustrada (caricatura), por se tratar de uma forma de expressão que ficou reduzida à imagem no nosso jornalismo". 

Depois, para organizar sua classificação, Melo estabelece que as duas categorias em que agrupa os gêneros jornalísticos "correspondem à intencionalidade determinante dos relatos". E nesse sentido, o autor identifica duas vertentes: a vertente da "reprodução do real" (informação) e a vertente da "leitura do real" (opinião). Explicação: "Reproduzir o real significa descrevê-lo jornalisticamente a partir de dois parâmetros: o atual e o novo. Ler o real significa identificar o valor do atual e do novo na conjuntura que nutre e transforma os processos jornalísticos". 

No reforço da proposta, Marques de Melo defende a idéia de que o jornalismo articula-se em função de dois núcleos de interesse: a descrição e a versão dos fatos - "daí o relato jornalístico haver assumido duas modalidades: a descrição e a versão dos fatos". Com base nessa visão, Marques de Melo propõe e defende a bifurcação dos gêneros jornalísticos, agrupando-os nas categorias do Jornalismo Informativo e do Jornalismo Opinativo. Ressalve-se, entretanto, que o seu estudo se aplica particularmente ao jornalismo brasileiro. A divisão dos textos jornalísticos em duas categorias deriva da convicção (essa é a segunda linha de argumentação com que Marques de Melo sustenta a sua proposta) de que os gêneros jornalísticos identificam-se a partir da natureza estrutural dos relatos observável nos processos jornalísticos. E explica assim seu ponto de vista: 

"Os gêneros que correspondem ao universo da informação estruturam-se a partir de um referencial exterior à instituição jornalística: sua expressão depende diretamente da eclosão e evolução dos acontecimentos e da relação que os mediadores profissionais (jornalistas) estabelecem em relação aos protagonistas (personalidades e organizações). Já no caso dos gêneros que se agrupam na área da opinião, a estrutura da mensagem é co-determinada por variáveis controladas pela instituição jornalística e que assumem duas feições: a autoria (quem emite a opinião) e a angulagem (perspectiva temporal ou espacial que dá sentido à opinião)". 

Com tais premissas, Marques de Melo propõe a seguinte classificação, com a listagem de 12 gêneros: 

Jornalismo Informativo 

Nota 

Notícia 

Reportagem 

Entrevista 

Jornalismo Opinativo 

Editorial 

Comentário 

Artigo 

Resenha 

Coluna 

Crônica 

Caricatura 

Carta 

A quantidade de gêneros da grade classificatória torna inevitável a similaridade entre vários deles. Em alguns casos, as semelhanças são bem mais bem acentuadas do que as diferenças, o que, no mínimo, não se harmoniza com o entendimento predominante que a Filosofia e a Literatura têm do questão dos gêneros: eles se definem pelas diferenças formais entre si. Talvez por isso, quando caracteriza os gêneros incluídos na sua proposta, o autor recorre a critérios que nada têm a ver com a forma dos textos. Na categoria dos gêneros que reproduzem o real, para Marques de Melo, a diferença entre Nota, Notícia e Reportagem está "na progressão dos acontecimentos, sua captação pela instituição jornalística e a acessibilidade de que goza o público". Introduz-se, assim, no elenco das razões, um novo critério, o da temporalidade: a Nota faz "o relato de acontecimentos que estão em processo de configuração"; a Notícia, "o relato integral de um fato que já eclodiu no organismo social"; a Reportagem, "o relato ampliado de um acontecimento que já repercutiu no organismo social e produziu alterações que são percebidas pela instituição jornalística". Já a Entrevista, para o autor, é "um relato que privilegia um ou mais protagonistas do acontecer, possibilitando-lhe um contato directo com a coletividade". 

Na categoria dos gêneros opinativos, para diferenciar e caracterizar as classes de texto, Marques de Melo inclui na sua lógica, além da temporalidade, critérios de angulagem e autoria, criando uma variedade argumentativa que exige detalhamento nas explicações. Assim: 

- O Comentário, o Artigo e a Resenha pressupõem autoria definida e explicitada; o Editorial não tem autoria, por ser espaço da opinião da instituição jornalística. 

- O Comentário e o Editorial estruturam-se segundo uma angulagem temporal que exige continuidade e imediatismo, o que não acontece com a Resenha e o Artigo. Estes dois últimos gêneros, para Marques de Melo, aproximam-se, também, pelo fato de serem classes de texto "cuja angulagem é determinada pelo critério de competência dos autores". 

- Em relação à Coluna, à Crônica e à Carta, um traço comum é a identificação da autoria. "Já as angulagens são diferentes. A Coluna e a Caricatura emitem opiniões temporalmente contínuas, sincronizadas com o emergir e o repercutir dos acontecimentos. A Crônica e a Carta estruturam-se de modo temporalmente mais defasado; vinculam-se diretamente aos fatos que estão acontecendo, mas seguem-lhe o rastro, ou melhor, não coincidem com o seu momento eclosivo". 

Pensamos que a temporalidade e a angulagem não são critérios adequados para conceituar e a caracterizar gêneros jornalísticos. Se deixarmos de considerar os fatos imprevisíveis e não programados, que ocupam cada vez menos espaço nas preocupações e nas páginas da imprensa diária, fácil é verificar que a temporalidade dos acontecimentos está vinculada a ações estratégicas de instituições e grupos, das quais o relato e a difusão jornalística fazem parte. As pautas jornalísticas são diariamente nutridas pela previsão de acontecimentos que irão desdobrar-se em vários momentos e estágios de eclosão, interdependentes e com relevância específica, para que o crescendo da ação conduza ao ápice em etapas progressivas, concretizadas nos momentos certos. 

Para que haja sincronismo entre a dimensão material e a dimensão comunicativa, o acontecimento articula-se e desenvolve-se em fatos sucessivos, aos quais os objetivos de sucesso impõem que se agreguem atributos que os tornem jornalisticamente interessantes. Nesse percurso ocorrem falas, eventos, decisões, conflitos, perguntas, respostas, ocorrências previstas ou inesperadas, com causas e efeitos que tanto podem justificar a notícia, quanto a reportagem, a entrevista ou o artigo - antes, durante ou depois da eclosão do acontecimento na sociedade. 

Quanto às angulagens, elas resultam da inspiração e da criatividade de quem escreve, no aproveitamento literário de detalhes, para seduzir leitores ou acentuar a atribuição de significados aos fatos. Em relação à evolução temporal dos acontecimentos, o que muda é a estratégia narrativa, não a angulagem. Além disso, com exceção da crônica - texto de autor que exige liberdade plena para a rebeldia estilística, e que por isso não se acomoda em classificações - o texto jornalístico é sempre produto de múltiplas interações inteligentes e intencionadas, entre jornalistas e fontes que têm informações, ou saberes, ou emoções, ou pontos de vista que interessam aos conteúdos e ajudam a construí-los. Pergunte-se a qualquer bom colunista, articulista, editorialista ou repórter quantas horas por semana ocupa em conversas com pessoas qualificadas e confiáveis - o que em nada reduz, mas aumenta, o mérito do trabalho jornalístico. 

Revelações da práxis

As investigações realizadas sobre a evolução dos gêneros jornalísticos na imprensa brasileira entre 1945 e 1995 produziram, entre outras, a evidência de que os conceitos "opinião" e "informação" perderam eficácia (se é que já a tiveram) como critérios para categorizar gêneros jornalísticos. A leitura de uma quantidade significativa de textos jornalísticos (o equivalente a 6.600.000 cm2 de área impressa) demonstrou que o relato jornalístico acolhe cada vez mais a elucidação opinativa, e que o comentário da atualidade exige cada vez mais a sustentação de informações qualificadas. Surgiu daí a convicção de que seriam necessárias novas buscas, teóricas e de observação, para um novo entendimento da questão dos gêneros jornalísticos. Face à dinâmica e ao grau de complicação das interações que o jornalismo viabiliza no mundo atual, não é mais possível explicar e entender a ação discursiva do jornalismo pela dicotomia Opinião x Informação. 

Qualquer leitura de jornal ou revista de grande circulação deixa evidente que as fronteiras entre opinião e informação são destruídas pela inevitabilidade da valoração jornalística, por sua vez influenciada pela interferência interessada e legítima dos vários sujeitos do processo, tanto no relato quanto no comentário da atualidade. Na pesquisa foram lidos, medidos e classificados textos de 164 edições dominicais dos quatro jornais diários brasileiros considerados de maior prestígio e influência em cada decênio da periodização adotada. E dos numerosos textos recortados para exemplificar o caráter valorativo da ação jornalística, selecionamos cinco, suficientes para demonstrar que informação e opinião integram - como partes solidárias, interativas, complementares, reciprocamente inevitáveis - o TODO do jornalismo e o INTRÍNSECO de cada tipo de texto. Vamos aos exemplos. 

REPORTAGEM 

"Tem um cheiro de recessão no ar. É só cheiro mesmo, já que, afinal, não se pode falar em recessão num ano em que o país deve registrar um crescimento de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) - soma de bens e serviços produzidos no país. A questão é que a expansão de 1995 será puxada pelo primeiro semestre. Para que a balança comercial possa adquirir algum equilíbrio e para que a inflação se mantenha no nível atual, dizem analistas, a economia tem de ter um segundo semestre de baixa atividade e, portanto, o melhor é que o Governo mantenha a política monetária sob forte aperto". - (O Globo, 25/6/95, p. 46). 

Essa é a abertura de uma reportagem assinada por Léa Cristina, sobre o comportamento da economia brasileira em 1995. Todo o texto da reportagem está tecido com fios de opinião e informação, organizados por um ponto de vista da repórter, claramente explicitado logo na introdução. Onde termina a informação e começa a opinião? Ou melhor, já que a intervenção opinativa tem início na primeira frase: onde termina a opinião e começa a informação? Entretanto, sob o ponto de vista formal, o texto conserva do começo ao fim a estrutura externa de narrativa, própria da espécie reportagem. 

CRÔNICA 

O Rio Grande trabalha para os bancos; Serjão 2002; Trabalho informal é pura sonegação; Lucro total; Os sem-terra num livro com brilho; Um grande bode; Para não micar. É o filtro opinativo que determina o estilo e a intensidade dos títulos do diversificado conteúdo da crônica de Élio Gaspari, mirante de página inteira debruçado sobre o Brasil (no exemplo recortado, títulos do texto publicado n’O Estado de S. Paulo, edição de 25/6/95). Está na força opinativa de verbos e adjetivos, em estratégias ora denotativas ora conotativas, o principal atrativo da crônica de Gaspari, semanalmente publicada numa rede nacional de grandes jornais. Quando se avança no texto, o que encontramos é informação de primeiríssima qualidade, inédita, impatante, captada em fontes qualificadas, provavelmente exclusivas, localizadas em espaços privilegiados da ação e da análise política, econômica e cultural. 

Entretanto, o que sofistica a atribuição de significados às informações são frases como estas: 

- O Estado brasileiro não está falido. Estão falindo o estado brasileiro. - (...) se alguém sonha com um projeto de coletivização da terra através de assentamentos, está a perder o seu ilustre tempo. Para o bem de todos e felicidade geral da Nação, o sem-terra assentado hoje quer ser o pequeno e próspero produtor rural de amanhã. 

- O Unibanco jogou uma partida rápida com o Sindicato dos Bancários de São Paulo. Para o bem de ambos e do distinto público, perdeu-a. 

COLUNA 

Joelmir Beting, o mais conceituado colunista brasileiro na área de economia, escreve assim, e ainda bem: 

"Nos móveis, a importação concentra-se no segmento de luxo. Frescura. A exportação parou nos US$ 300 milhões. É que o Brasil prefere exportar madeira: US$ 1 bilhão. Além de exportar com baixo valor agregado, isso encarece a matéria-prima para o mercado interno. (O Estado de S. Paulo, 29/6/95). 

Para onde iria esse texto, nas arrumações classificatórias do velho paradigma - para a categoria dos textos informativos ou para a dos textos opinativos? 

NOTÍCIA 

"Vinho tinto francês é o mais saudável". 

O título é de uma notícia publicada n’O Estado de S. Paulo, edição de 25/6/95, e resume o veredicto de especialistas, depois de analisarem vinte qualidades de vinho. A relevância da informação está exatamente na opinião, dada a credibilidade dos especialistas que a produziram. O redator percebeu isso, pondo ênfase no resultado da avaliação - e dezenas de exemplos semelhantes poderiam ser recortados, diariamente, na imprensa de qualquer país. Porque, na lógica jornalística, o âmago da notícia está frequentemente na frase de alguém que, ao dizê-la, sendo quem é, lhe dá a contundência opinativa que a torna jornalisticamente relevante. 

ARTIGO 

"(...) não é só na França que a questão da previdência estala, embora, por enquanto, seja lá que os sindicalistas e os estudantes tenham ido às ruas para enfrentar a polícia. Na Alemanha, o governo tenta frear as despesas com a saúde. O governo americano parece disposto a renunciar à pretensão de generalizar o seguro-doença (...). A Suécia já diminuiu os encargos médicos e se prepara para encolher as gratificações no serviço público a partir de 1o de janeiro. Na França, o déficit acumulado da previdência chegou a 46 bilhões de reais, com perspectiva de mais 10,6 bilhões em 1996, o que obrigou o governo a lançar o seu vasto plano de refinanciamento e reorganização da previdência." - (Editorial "Retorno à realidade", Jornal do Brasil, 3/12/95, p. 12). 

Sustentado em informações como essas, o editorialista desenvolveu sua análise aos conflitos e contradições a que os países do primeiro mundo estavam sendo submetidos pela corrente neoliberal, especialmente os da União Européia. 

A cultura jornalística produziu, pois, um equívoco. Até a notícia dita objetiva, construída com informação "pura", hard, como se diz no jargão de inspiração americana, resulta de seleções e exclusões deliberadas, controladas pela competência opiniática do jornalista. É claramente inadequado usar o conceito artigo como equivalente a opinião. Opinião é ajuizamento, atribuição de valor a alguma coisa, ponto de vista, pressuposto, modo de ver, de pensar, de deliberar; artigo, no plano da linguagem, identifica um tipo de texto organizado em esquemas argumentativos, adequados para a estruturação de comentários. Ou seja: artigo está da dimensão da forma; opinião, na dimensão do conteúdo. E o mesmo raciocínio se pode aplicar ao paralelismo entre informação e os diversos tipos de texto do relato jornalístico, organizados em esquemas narrativos, para que alcancem sucesso. 

Quando Samuel Buckey decidiu separar as notícias (news) dos comentários (comments) não levantou qualquer barreira entre opinião e informação, ainda que tivesse pensado fazê-lo. O que ele separou foram dois tipos de texto, um com estrutura formal argumentativa, outro com estrutura formal narrativa. Nos conteúdos, porém, e nas intencionalidades, lá estão informação e opinião, substâncias que permanecem, interativas, na totalidade do jornalismo, para que nele se conserve a característica essencial, a de ser linguagem asseveradora. No "policiamento" da opinião, que os crentes da objetividade fazem, é claramente identificável um viés moralista, como se a opinião, só por si, tornasse suspeita a informação. E a questão não é moral nem ética, mas de estratégia interlocutória: para o relato dos acontecimentos, a narração é mais eficaz. Ao relatar-se, conta-se uma história, com suas complicações e seus sucessos, mas os juízos de valor lá estão, implícitos, nas intencionalidades das estratégias autorais, e explícitos, nas falas (escolhidas) dos personagens, às vezes até nos títulos. 

Há que dar início a uma nova discussão sobre a teoria dos gêneros jornalísticos, ancorando-a nas ciências da linguagem. Porque gêneros são formas do discurso. Na visão pragmática, formas de dizer, para fazer - o que explica, no jornalismo, a importância da eficácia. 

* Ensaio extraído do livro CHAPARRO, Manuel Carlos, Sotaques d'Aquém e d'Além Mar – Percursos e Gêneros do Jornalismo Português e Brasileiro, Jortejo Edições, Santarém (Portugal), 1998.


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Entre senso comum e ciência: o conhecimento

híbrido do jornalismo

 

Ciências & Cognição 2007; Vol 10: 02-14 <http://www.cienciasecognicao.org> © Ciências & Cognição

􀀅 – Liriam Sponholz é Jornalista, Mestre em História, Cultura e Poder (Universidade Federal do Paraná) e doutoranda em Comunicação (Universidade de Leipzig, Alemanha). E-mail para correspondência: l_sponholz@hotmail.com.

Resumo

Neste artigo, pretende-se discutir o jornalismo como tipo de processo de conhecimento. Ao contrário da tese de que o jornalismo não seria ciência, porque pertence ao senso comum, parte-se  do  pressuposto de que o jornalismo não é nem senso comum nem ciência. Para isso, avalia-se o que é conhecimento e o que caracteriza tipos clássicos como a ciência e o senso comum. Em seguida, analisa-se o que diferencia e o que assemelha o jornalismo a estas duas formas clássicas de conhecimento.

Palavras-chaves: conhecimento; jornalismo; ciência; senso comum.

 

Nos jornais de hoje, o leitor pode ser informado que a rua próxima à sua casa, que está em obras há meses, deve ser reinaugurada na próxima semana, que o preço do combustível vai subir de novo na quarta-feira, que a probabilidade de que pessoas que bebem café desenvolvam câncer de intestino é menor, que ainda não há um consenso entre os espanhóis sobre como eles julgam a ditadura Franco.

Em outras palavras, através do jornalismo tem-se diariamente a chance de saber o que acontece no próprio meio ambiente. Um ambiente que fica cada vez mais complexo e do qual só uma pequena parte pode ser vivenciada diretamente. Tem-se a possibilidade de saber não só sobre coisas que se usam no dia-a-dia, mas também sobre outras, que formam as imagens que se têm do mundo.

Mas como isto funciona? Pode-se confiar no tipo de conhecimento que o jornalismo produz? Ele não é muito superficial? Ou trata-se de verdades comprovadas cientificamente? Para responder essas perguntas, é preciso analisar em primeiro lugar o que é e como o jornalismo produz conhecimento. Este é o tema deste artigo.

Em primeiro lugar, pretende-se discutir o que é o conhecimento e como é que se conhece. Esta discussão é feita (não somente, mas) sobretudo a partir da teoria evolucionista do conhecimento de Gerhard Vollmer (1985).

Em seguida, serão apresentados os dois tipos clássicos de processos de conhecimento, o do senso comum e o da ciência. Sobretudo o conhecimento do senso comum remete a um conceito polissêmico, que varia de acordo com a sua aplicação, com a área de conhecimento e até mesmo com a concepção filosófica. Por isso, faz-se necessário definir claramente o que é senso comum, para que se possa confrontá-lo com o jornalismo e reconhecer semelhanças e diferenças entre ambos os processos de conhecimento. Neste trabalho, toma-se como ponto de partida para a definição destes o racionalismo crítico de Karl Popper. Para concluir, descreve-se qual tipo de processo de conhecimento o jornalismo representa e por que ele não é nem senso comum nem ciência. 

1. O processo de conhecimento

Conhecer não significa simplesmente vivenciar ou perceber algo sobre a realidade ou o mundo exterior, mas sim trabalhar o que foi vivenciado ou percebido. Conhecimento resulta do processamento e da estruturação dos conteúdos vivenciados e da posterior comparação daquilo que foi recebido e processado com os esquemas já gravados no cérebro (Vollmer, 1985: 33). Ou seja, as informações ou estímulos recebidos do mundo exterior não são simplesmente transportados para o cérebro, mas sim transformados.

O mundo exterior ou realidade oferece mais estímulos do que o ser humano tem capacidade de assimilar. Como não se pode conhecer a realidade inteira, o sujeito concentra a sua atenção nas áreas de percepção que lhe interessam.

Quem caminha por um calçadão morrendo de fome, querendo comprar um pãozinho fresco, só vai perceber a loja de sapatos na mesma rua com o canto dos olhos. Se é que a perceberá(Bentele, 1982: 125, tradução nossa).

O sujeito conhecedor busca o contato com o mundo exterior por interesse. Isto significa que subjetividade não somente é uma característica intrínseca a este processo, como também uma condição sine qua non para a busca da realidade.

“Observação é sempre seletiva. Precisa da escolha de um objeto, de uma tarefa definida, de um interesse, de um ponto de vista, de um problema. E sua descrição pressupõe uma linguagem descritiva, com palavras apropriadas” (Magee, 1975: 33, tradução nossa).

 O fato de que alguém conhece a realidade a partir de um determinado ponto de vista corresponde a uma outra estratégia de conhecimento, a perspectividade. Bentele (1982: 126) a define como a limitação da percepção a um determinado ponto de partida local e temporal. Isto abrange não somente o momento histórico e o ponto geográfico, mas também interesses e ideologia. Percepção e conhecimento sem perspectiva são basicamente impossíveis(Bentele, 1982: 126, Tradução nossa). Isto significa que os estímulos recebidos do mundo exterior, que também podem ser denominados conteúdos vivenciados, são processados e estruturados dentro de uma perspectiva.

Estes estímulos só podem ser conhecidos porque correspondem a uma situação ou a um objeto que já se conhece.

“Para tornar isso óbvio, um observador não precisa conhecer gatos siameses toda vez que encontra um. Nós entendemos o novo siamês de um amigo porque nós temos outros objetos como este gravado na nossa memória”. (Stocking e Gross, 1989: 9, Tradução nossa).

Vollmer (1985: 33) descreve isto como comparação daquilo que foi recebido e processado com os esquemas já gravados no cérebro (Engrammen). Através da classificação do estímulo escolhido dentro daquilo que já se conhece, o que se vivenciou adquire um sentido. Através deste processo o novo conteúdo vivenciado é categorizado, ou seja, reconstruído em um novo contexto.

Segundo Stocking e Gross (1989), o processo de categorização resulta na rotulação do acontecimento (labeling) e na inferência ou dedução (inference). A rotulação dá sentido ao acontecimento, pois o que aconteceu é comparado com uma situação vivida anteriormente e recebe a mesma “etiqueta”. Um mesmo evento pode receber “etiquetas” diferentes de seus observadores, se estes processarem e estruturarem o que vivenciaram de acordo com esquemas cognitivos diferentes.

Um exemplo disto ocorreu durante a guerra na Bósnia, quando alguns jornalistas europeus classificaram os campos de prisioneiros de guerra como campos de concentração, uma experiência histórica que faz parte dos conteúdos vivenciados por eles anteriormente. A correspondente de guerra brasileira Cristiana Mesquita também cobriu o conflito, mas comparou a situação dos campos na Bósnia com a das prisões brasileiras¹.

Quando um campo de prisioneiros de guerra é classificado como campo de concentração, então são tiradas conclusões a esse respeito, sem que estas tenham sido necessariamente observadas. Se estes locais correspondem a campos de concentração nazistas, então deduz-se que as pessoas que lá estavam não só eram assassinadas ou mortas pela condições subumanas sob as quais viviam, mas sim sistematicamente eliminadas.

Esta categorização também conduz a um processo de julgamento (judgement), ou seja, a partir do conhecimento de que os campos de prisioneiros são campos de concentração, o sujeito conhecedor formula sentenças e recomendações a este respeito (ver a respeito em Stocking e Gross, 1989: 17).

No resultado da transformação de um estímulo do mundo exterior em conhecimento, pode-se reconhecer tanto características do objeto como do sujeito. Nenhum processo de conhecimento resulta em uma imagem completamente diferente da realidade. Todos os tipos de conhecimento partem da realidade. Os personagens de filmes, por exemplo, podem ser fictícios, mas o espectador pode se identificar com eles ou com as situações vividas por estes exatamente porque essas experiências acontecem ou poderiam acontecer de fato. Neste sentido, pode-se dizer que conhecimento puramente subjetivo é impossível.

Quando o sujeito conhecedor reconstrói o que vivenciou, ele constrói uma segunda realidade. Isto não significa que esta nova realidade seja construída de maneira arbitrária. Ela é produzida a partir da observação da realidade primária e carrega elementos do mundo exterior em si. Este processo de reconstrução pode ser chamado de construtividade.

Seletividade, perspectividade e construtividade não permitem que se possa espelhar a realidade primária em uma realidade simbólica, mas uma ligação entre as duas é possível. O decorrer do processo do conhecimento aponta para uma reconstrução em correlação com a realidade. Ao mesmo tempo, seu resultado não é uma cópia ou espelhamento da realidade.

“Perceber e conhecer não precisam necessariamente ser entendidos como construção ou como retrato. Muitas coisas falam a favor de se compreender o perceber e o conhecer como retrato através de construção.” Bentele, 1993: 160, tradução nossa).

2. Tipos de processo de conhecimento

Há diferentes formas de processar e estruturar os conteúdos vivenciados. Em outras palavras, há diferentes processos de conhecimento. Os casos mais conhecidos são os da ciência e do senso comum. Este último é o ponto de partida para todos os outros tipos de processo de conhecimento (ver a respeito em Popper, 1984; Santaella, 2001).

Senso comum é um conceito polissêmico. O que se entende como tal varia de acordo com a área de conhecimento, com a concepção filosófica etc. Neste trabalho, senso comum deve ser entendido como um tipo de conhecimento que resulta do armazenamento de modelos de ação e interpretação no cérebro, que é compartilhado por um público (portanto, não é individual) e retratado como natural. Fontes deste tipo de conhecimento são tanto experiências primárias como secundárias. As primeiras são vivenciadas pessoalmente e as secundárias, através de outras pessoas e/ou através da mídia ou ainda vêm de outros tipos de conhecimento, como por exemplo a ciência. Características deste tipo de processo de conhecimento são a rotinização, a naturalidade, a universalidade e a coletividade.

O senso comum é freqüentemente igualado ao saber cotidiano quando se refere às soluções que são desenvolvidas no e para o dia-a-dia. Uma vez que a solução encontrada funciona, tende-se a mantê-la e ela se torna parte constitutiva do nosso “saber”. “Sabe-se”, portanto, que chá preto ajuda contra dor de barriga, que suco de maracujá acalma etc. Este tipo de processo de conhecimento tem a função de fornecer modelos de ação para as situações cotidianas (rotinização).

O senso comum não se reduz, no entanto, a orientações cotidianas de ação. Uma outra característica central deste tipo de conhecimento é o fato de ele ser tratado como “natural” e, portanto, dispensar qualquer justificação (Albersmeyer-Bingen, 1986). Se uma nova experiência contradiz o préconhecimento, ou seja, os modelos de ação e interpretação que já se tinha, ela será ajustada para que caiba nestes. Deste modo, uma nova experiência nunca contradiz o que já se “sabe” (Varga, 2004: 54).

Através disto, esta forma de conhecimento se torna “natural”. Ou a pessoa “sabe” porque vivenciou pessoalmente que “A” é assim mesmo ou “sabe” pelos outros que “A” é verdade. Por isso, qualquer justificativa é desnecessária.

Isto se deve à função do senso comum de fornecer modelos para agir e para pensar. Para poder agir, a pessoa tem que partir do pressuposto de que sabe o que está fazendo. Ela precisa se fixar a uma determinada interpretação do mundo e acreditar nesta (Varga, 2004: 29). Se ficar se perguntando o tempo inteiro como e por quê, nunca chegará a agir.

Este conhecimento é constituído por frases universais, ou seja, o conhecimento ganho através destas experiências é generalizado e como tal armazenado (universalidade). Além da universalidade, uma das principais características deste tipo de conhecimento é a sua coletividade. O senso comum não precisa ser compartilhado por todos, mas sim pelo grupo ou público que dividem o mesmo “mundo” com o sujeito conhecedor.

Senso comum não deve ser confundido com opinião, nem mesmo opinião da maioria. Para tornar esta diferença concreta, tome-se por exemplo (fictício) de uma pesquisa de opinião pública sobre a restrição do número de feriados com o objetivo de aumentar a produtividade nacional. Quando o pesquisador de um instituto de opinião pública pergunta ao seu entrevistado qual o feriado que deve ser cortado, o Dia da Indepência (7 de setembro) ou o da Nossa Senhora Aparecida (12 de outubro), o senso comum não está contido na escolha da maioria por um ou por outro, mas sim na necessidade de reduzir os feriados, que não é colocada em questão.

Uma convicção baseada no senso comum significa mais do que ter uma opinião. Quando se tem uma visão sobre um tema, a pessoa retrata a própria opinião como uma entre outras. Provavelmente como a melhor, mas ainda assim como uma alternativa. A própria opinião é submetida ou resulta de um processo de argumentação. Quando se fala de senso comum, não há nem sequer uma outra opinião que poderia ser discutida, já que quem pensa de outra maneira age a priori contra o óbvio. Qualquer opinião dissidente é enquadrada como heresia, falta de saber ou cegueira, já que vai “contra a natureza”.

Senso comum é mais do que um conhecimento de caráter comum. Segundo Lindenberg (1987: 202), as suas raízes são a natureza humana e as situações sociais, o que faz com que o senso comum nos oriente para a interação social. Fica claro, portanto, que ele não só fornece modelos de ação para tarefas básicas, rotineiras, que possibilitam nossa sobrevivência, mas também esquemas de interpretação, através dos quais nós modelamos nossas relações sociais. Estes modelos são retratados como naturais, o que tem como conseqüência que (Varga, 2004: 13):

• Estes modelos não precisam ser justificados;

• Necessariamente funcionam;

• Devem ser tomados como normas.

Contemplar uma determinada maneira de agir ou pensar como natural pode trazer problemas sociais e políticos consigo. Através do senso comum, as relações sociais são naturalizadas. Assim, “Deus ajuda quem cedo madruga”, como se o único ou principal fator que determinasse o sucesso financeiro e/ou profissional de alguém fosse a sua jornada de trabalho, bem como “lugar de mulher é atrás do fogão”, como se isto fosse uma lei natural e não resultado de uma relação social construída, que pode ser estabelecida de outra maneira.

O senso comum pode provocar não só problemas políticos e sociais, mas também preocupações epistemológicas. A “naturalidade” com que este conhecimento é retratada engessa a busca pela realidade. Como já se “sabe” e o que se sabe é óbvio, não é preciso continuar tentando se aproximar da realidade para conhecer mais. O resultado é que noções falsas sobre nosso ambiente natural e social continuam sendo utilizadas como base para nossas ações e soluções são encontradas a partir de premissas erradas.

O senso comum tem características que a ciência também tem. Ambos são constituídos pelo conhecimento ganho através de tentativas e erros (Popper, 1984: 64). Mas a principal diferença entre ambos é que, enquanto para o senso comum basta o conhecimento que nos permite sobreviver, a ciência tenta se aproximar cada vez mais da realidade (já que alcançá-la e conhecê-la totalmente é impossível) (Popper, 1984). Com isso, o saber científico busca ir além daquilo que se sabe até o momento. O senso comum só tenta fazer isso quando os seus modelos não funcionam mais.

A ciência problematiza seus objetos. A frase “chá preto é bom contra dor de barriga” poderia ser uma afirmação científica, mas por outras razões, ou seja, com outro tipo de justificativa. De acordo com Popper (1984: 81), a ciência – que é essencialmente crítica – tem um caráter de suposição e não se entende menos como segura, pois transforma algo que normalmente funciona intencionalmente em um problema.

Para a ciência, não basta saber que todos os nossos parentes e conhecidos que têm problemas de estômago tomaram chá preto e, depois disso, as dores cessaram. O fato de que algo funciona não é uma resposta satisfatória para o cientista. A ciência exige uma outra explicação, uma outra justificativa sobre por que funciona. Neste sentido, a ciência se difere do senso comum porque precisa de uma justificativa e esta deve seguir regras. Ou seja, o cientista tem que dizer como é que ele sabe, enquanto no senso comum, simplesmente sabe-se.

Outra diferença entre ambos é que a observação da realidade na ciência segue regras, que derivam de uma teoria sem contradições. A ciência não oferece um conhecimento definitivo, porém ela pode se aproximar mais da realidade do que o senso comum porque o seu conhecimento nunca é tratado como seguro.

3. Jornalismo como tipo de processo de conhecimento

Pode-se conhecer a realidade através do jornalismo? O jornalismo é uma forma de processar e estruturar os conteúdos vivenciados? Se a resposta é sim, então se pode dizer que jornalismo é um tipo de processo de conhecimento.

O jornalismo obedece às mesmas regras dos processos de conhecimento em geral. Como qualquer outro tipo de processo de conhecimento, não consegue espelhar a realidade porque este processo é sempre perspectivo, seletivo e construtivo. Sempre que alguém processa, estrutura e compara os estímulos que recebeu do mundo exterior com o que já sabe, ou seja, sempre que uma pessoa conhece algo, ela o faz de uma determinada perspectiva. Esta é uma parte inevitável do processo de conhecimento. Com jornalistas, como com qualquer outra pessoa, também é assim.

A realidade midiática é seletiva. Ela segue as mesmas regras que um ser humano obedece para entrar em contato com a realidade. Só alguns aspectos do mundo exterior são absorvidos. A realidade midiática apresenta a realidade primária através de uma extrema redução de complexidade. A realidade midiática que o jornalismo produz não é e não pode ser a realidade primária. Ela é uma representação da realidade primária.

A realidade midiática que resulta do processo de conhecimento jornalístico contém aspectos tanto subjetivos quanto objetivos. A separação de sujeito e objeto – como os defensores de algumas noções tradicionais de objetividade pregam – é não só desnecessária, como também questionável. Como alguém pode escolher um aspecto do mundo exterior sem ter nenhum tipo de interesse nisso?

Por outro lado, o fato de que o jornalismo representa uma forma de conhecimento perspectiva, seletiva e construtiva, marcada por elementos subjetivos, não significa que não há nenhuma correlação entre o mundo exterior ou realidade primária e a realidade midiática, ou que esta correlação não seja possível.

No jornalismo, esta discussão ocupa um espaço especial, já que o objeto do jornalismo é a realidade (Bentele, 1988; Guerra, 2000). Textos jornalísticos não só podem, eles têm que ter uma semelhança estrutural com a realidade.

Como esta semelhança é produzida? O que caracteriza o jornalismo do ponto de vista epistemológico? Que tipo de processo de conhecimento ele representa? Senso comum ou ciência? O que o diferencia da ciência e do senso comum?

A resposta a estas perguntas depende da perspectiva através da qual se contempla este processo de conhecimento: do ponto de vista da produção ou da recepção. O primeiro se refere ao processo através do qual o jornalista conhece a realidade, ou seja, quando a realidade social é transformada em realidade midiática (representação da realidade na mídia). No segundo caso, o receptor conhece a realidade através do jornalismo, ou seja, a realidade midiática se torna a realidade do público (representação da realidade que o público tem).

Ao se contemplar a função social do jornalismo de fornecer orientações para o nosso dia-a-dia, então pode-se classificá-lo como senso comum. A função das notícias, segundo Park, é orientar as pessoas e a sociedade no seu mundo. “In so far as it succeeds it tends to preserve the sanity of the individual and the permanence of society” (Park, 1967: 50). É na função para o receptor que Park se baseia para classificar o jornalismo como “conhecimento de trato” (acquitance with) e diferenciá-lo da ciência, que seria conhecimento sistemático, formal e racional (Park, 1967: 37).

Isto está relacionado com a resposta a uma demanda que o jornalismo assumiu historicamente. O mundo alcançou uma tal complexidade, que não é mais possível vivenciar as mudanças pessoalmente. Como Meditsch (1992: 30) explica, um homem na Idade Média podia vivenciar as mudanças no mundo à sua volta na sua superfície, na sua dimensão perceptível. Hoje em dia, precisa-se do jornalismo para mostrar estas mudanças.

No entanto, jornalismo não é só aquilo que se consome, mas também algo que é produzido. E no seu processo de produção, o jornalismo se diferencia essencialmente do senso comum. Genro Filho (1988: 58) critica a posição dos que defendem que a transformação da realidade midiática para a realidade do público possa ser igualada com uma substituição da percepção direta exatamente por isso:

“Na percepção individual, a imediaticidade do real, o mundo enquanto fenômeno, o ponto de partida. No jornalismo, ao contrário, a imediaticidade é o ponto de chegada, o resultado de todo um processo técnico e racional que envolve uma reprodução simbólica (...) Não se pode falar de uma correspondência de funções entre o jornalismo e a percepção individual, mas sim de uma ‘simulação’ desta correspondência.” (Genro Filho, 1988: 58).

No caso da percepção individual, vivencia-se a realidade dentro de um comtexto. O jornalismo tenta reconstruir esse contexto para que o leitor, telespectador ou ouvinte possa se sentir neste contexto, que é reconstruído através da linguagem.

É preciso, no entanto, chamar a atenção para o fato de que – ao contrário do que afirmou Genro Filho – nem a percepção direta nem a sua simulação através do jornalismo são imediatas, já que em todos os tipos de conhecimento há um sujeito, que observa a realidade de maneira seletiva e a partir de uma perspectiva. A sua crítica é ao mesmo tempo válida, já que mostra que o jornalismo não pode ser igualado ao senso comum, se o processo técnico e racional de produção for considerado. Quando o jornalista conhece a realidade, ele processa e estrutura os conteúdos vivenciados não somente dentro de uma perspectiva e de acordo com o seu pré-conhecimento, mas também de acordo com regras profissionais.

Senso comum e jornalismo se assemelham, portanto, no que diz respeito à sua função. Considerando-se o recorte através do qual o senso comum, o jornalismo e a ciência possibilitam o acesso à realidade, o jornalismo se difere de ambos.

Genro Filho (1988: 64) ocupou-se com esta questão e sistematizou os diferentes tipos de conhecimento em três categorias: singular, particular e universal. Tudo que existe pode ser classificado em uma destas categorias. Por exemplo, Pedro Silva pertence como tal à categoria singular. Como motorista de caminhão, ele pertence à categoria particular e como ser humano, à categoria universal. Esta classificação não deve ser vista de maneira radical, já que Pedro pode ser parte de todas elas, por motivos diferentes.

Segundo Genro Filho (1988), o jornalismo ganha conhecimento sobre o mundo através do singular, enquanto a ciência se concentra no que há de universal. Ou seja, a ciência só se interessa por Pedro como ser humano ou como motorista de caminhão (isto é, como um dos pertencentes a este grupo), mas não como indivíduo. No senso comum, como já analisado, o conhecimento ganho também tem um caráter universal. Para o jornalismo, o mais importante é exatamente o que é menos universal.

Se Pedro sofrer um acidente com o seu caminhão em uma rodovia, o jornalismo vai se interessar como Pedro Silva, motorista de caminhão, 35 anos, pai de dois filhos, com uma jornada de trabalho de 16 horas por dia, se acidentou na rodovia BR-X, que se encontra em um estado precário e não sofre reparações desde 1985. Para a ciência, este acontecimento poderia ser importante, mas não como evento singular. O cientista pode escolher o acidente como tema dentro de um conjunto de acidentes com caminhões ou em um levantamento sobre a situação das rodovias. Isto é, a ciência só se interessa pelos

aspectos particulares ou universais deste caso. A sua exclusividade é ignorada. O jornalismo, porém, se importa exatamente com o que a ciência ignora.

De acordo com Genro Filho (1988: 65), a singularidade é a característica principal do jornalismo como tipo de conhecimento. É ela que impede que o jornalismo seja classificado como ciência.

O jornalismo se concentra portanto em casos e não busca regularidades, como a ciência faz (Neuberger, 1996: 153). Em uma reportagem sobre desemprego, o jornalista pode ir ao Serviço de Seguro-Desemprego e entrevistar algumas pessoas que aguardam para serem atendidas. O jornalista conta então a história de João, Pedro e Maria, que perderam seus empregos. Ele não vai se concentrar naquilo que une as três histórias para encontrar uma regra para esclarecer o problema do desemprego. Trata-se exatamente do oposto, ou seja, de mostrar os aspectos singulares na história de vida das três fontes, como por exemplo, o que João fazia antes, qual a sua profissão, quanto ele recebia por mês, como ele faz para sustentar os seus filhos, como é o seu dia-a-dia hoje.

O fato, porém, de que o jornalismo se concentra nesta categoria não significa que desta maneira não se possa adquirir conhecimento. Este tipo de conhecimento pode revelar aspectos da realidade que a ciência ignora ou considera irrelevantes. Quando um jornalista acompanha o dia-a-dia de um presidiário, por exemplo, e conta o que vivenciou, ele passa informações importantes para se entender o problema.

Embora o foco no singular seja uma característica inerente ao jornalismo, os eventos singulares precisam ser reconstruídos em um contexto particular. Neste processo esconde-se a possibilidade de uma leitura crítica da realidade (Genro Filho, 1988: 192).

O jornalismo se difere da ciência e do senso comum, seja pelas funções sociais que cumprem e pelas questões epistemológicas que decorrem das diferenças no corte da realidade feito por ambos seja pelos recursos disponíveis.

Com relação à função, o que aproxima o jornalismo do senso comum é o que o distancia da ciência. Como Meditsch (1992: 54) esclarece, embora jornalismo e ciência tenham coisas em comum (ambas são formas de conhecimento condicionadas históricamente pelo desenvolvimento da sociedade industrial capitalista), ambos assumiram tarefas diferentes e desenvolveram metodologias específicas. A ciência se transformou nas ciências, enquanto o jornalismo se mantém no generalismo. E esta seria a tarefa mais importante do jornalismo, a de possibilitar o diálogo entre o físico, o advogado, o operário e o filósofo (Meditsch, 1992: 55).

Considerando-se as questões epistemológicas, o que aproxima o jornalismo da ciência é o que o distancia do senso comum. Provavelmente, a questão epistemológica mais importante é a do método. O senso comum não exige um método, já que se trata de conhecer algo “natural”. No senso comum, não é preciso justificar as afirmações. O defensor de uma afirmação provinda deste tipo de processo de conhecimento diria que basta ter bom senso, para “saber” que a frase “A” é correta ou errada.

Enquanto no senso comum suposições são tratadas como “verdades óbvias”, o jornalista tem que testar as suas suspeitas. Jornalistas têm que testar suas hipóteses de acordo com regras. O jornalismo não aceita argumentos como por exemplo “Alguém me disse..” ou “todo mundo sabe que é verdade”. O mesmo ocorre com a ciência. O cientista escolhe seu objeto, procura aproximar-se deste através de uma teoria (um sistema de frases sem contradições), deduz destas hipóteses, que devem ser testadas de acordo com regras.

Portanto, nem no jornalismo nem na ciência as afirmações podem ser tratadas como “naturais”. Estas precisam ser justificadas, o que exige que seja utilizado um método, ou seja, uma série de procedimentos sequenciais adotados conscientemente e planejados com o objetivo de vivenciar algo sobre a realidade (Mehrtens, 1990).

Com relação ao jornalismo, as diferenças começam pelos objetos, o que reflete a questão já mencionada do recorte da realidade. Neuberger (1996) classifica ciência e jornalismo como formas diferentes de conhecimento devido à natureza dos eventos com os quais este último trabalha. Os acontecimentos em jornalismo não podem ser repetidos. Além disso, a observação da realidade é mais limitada, já que o jornalista raramente observa pessoalmente o que aconteceu, pois eventos relevantes acontecem via de regra em locais difíceis de serem alcançados. Um pesquisador, ao contrário, pode repetir suas experiências (Neuberger, 1996: 154). Como o jornalismo se concentra em acontecimentos singulares e em fontes não representativas, Neuberger propõe que o jornalismo seja comparado com as pesquisas qualitativas em ciências sociais.

Os objetos com os quais trabalham, por sua vez, revelam as semelhanças entre ambos os tipos de processos de conhecimento. Fabris (1981: 16) analisa ambos os processos de conhecimento a partir dos seus objetos.

“Quando jornalistas se ocupam com acontecimentos sociais, noticiam sobre processos sociais e atores políticos e econômicos, eles praticam quase ciência social empírica. Eles se colocam em uma posição indireta de concorrência com as produções conhecidas da pesquisa social com relação à descrição e a interpretação de processos e atores sociais.” (Fabris, 1981: 16, tradução nossa).

Outro ponto de convergência entre ciência e jornalismo – a utilização de um método – também pode ser controversa. A discussão começa com o papel da teoria em ambos os casos. Para Meditsch, a observação no jornalismo não se orienta em um sistema teórico, o que a torna, de um ponto de vista científico, incontrolada (Meditsch, 1992: 55- 56).

A orientação em um sistema teórico traz conseqüências para a formulação de hipóteses. Para Meditsch, como não há uma teoria, o jornalista não teria hipóteses para testar, mas sim uma pauta. O isolamento de variáveis é substituído pelo ideal de apreender o fato de todos os pontos-de-vista relevantes. Isto determina a capacidade de armazenamento de conhecimento em jornalismo (Meditsch, 1992: 55-56).

De acordo com Meditsch, os métodos jornalístico e científico são tão diferentes (1992: 54), que critérios científicos não podem ser utilizados no jornalismo: “O jornalismo jamais seguirá o mesmo critério da ciência e, ao ser medido pela vara alheia, só pode aparentar estranheza, não pode ser compreendido.”

Para Meyer, pelo contrário, há neste ponto uma semelhança estrutural entre jornalismo e ciência. Na sua opinião, tanto jornalistas quanto cientistas partem de uma teoria. Jornalistas precisam de um modelo teórico para que possam selecionar e organizar os dados relevantes e torná-los compreensíveis:

“To think about them (the data) at all, you need a perceptual framework. (...) Different writers in different fields have given different names to these perceptual structures. Psychologists sometimes call them ‘schema’. They are also known as constructs, hypotheses, expectations, organizing principles, frames, scripts, plans, prototypes, or even (this one from psychology) ‘implicational molecules’. Walter Lippmann called them ‘stereotypes’. (...) In its most sophisticated and conscious form, the schema, construct, or stereotype becomes a theoretical model.” (Meyer, 2001: 10).

Meyer defende a idéia de que jornalistas, de modo consciente ou inconscientemente, formulam hipóteses: “You can’t begin to think about a problem without some kind of theoretical framework. And you will have one, whether you are conscious of it or not.” (Meyer, 2001: 12).

O desenvolvimento de hipóteses é, para Meyer, um processo através do qual o modelo teórico escolhido passa para um nível consciente, no qual ele pode ser avaliado. Isto significa que as hipóteses são a expressão do modelo teórico em uma forma que pode ser testada empiricamente. Assim como o cientista, os jornalistas tentam testar suas hipóteses.

“Modern scientific method provides for aggressive reality testing. Journalists are interested in testing reality, too. The main difference – beyond the obvious one that journalists are in more of a hurry is that journalists are more passive about it. Instead of testing reality directly with their own observations, deductions, and experiments, they are normally content to do their cross-checking by consulting different authorities with different viewpoints and different interests.” (Meyer, 2001: 13).

Para poder avançar nesta discussão, faz-se necessária uma definição clara do que se entende como “teoria”. Todos os tipos de conhecimento são conduzidos por teorias (Popper, 1984: 72). Uma criança que quer atravessar uma rua não precisa ter sido vítima

de um atropelamento ou ter visto um para saber que antes de atravessar é preciso olhar

para os dois lados para ver se nenhum carro vem à sua direção. Isto ela aprende teoricamente, ou seja, nem através de experiência nem de observação direta.

Portanto, tanto a posição de Meditsch, de que jornalistas não trabalham com teorias, como a de Meyer, de que o jornalismo seria uma ciência empírica por também ter a tarefa de “testar” a realidade, parecem ser equivocadas. A primeira, porque todo conhecimento é em primeira mão teórico. A segunda, porque o “teste” de realidade em jornalismo se difere essencialmente do da ciência.

O fato de que jornalistas partem de uma teoria, como Meyer constata, não é suficiente para mostrar que o jornalismo se assemelha a um método científico. A teoria do jornalista não é um sistema de frases sem contradições, como a do cientista. O jornalista tem poucas chances de desenvolver um sistema teórico sem contradições internas a partir de outras teorias, pois ele não é um especialista.

De fato, jornalistas não partem de uma teoria científica, ou seja, de um sistema de afirmações sem contradições (ver a respeito em Popper, 1994). No entanto, isto não deve ser confundido com o (não) desenvolvimento de hipóteses. Hipóteses científicas são as teorias formuladas em frases que podem ser testadas empiricamente. Como as teorias em jornalismo e ciência são diferentes, as hipóteses que resultam delas também o são.

Jornalistas têm uma idéia ou uma pré-opinião sobre aquilo que noticiam, antes mesmo de começar a reportagem. Isto não significa que estas idéias ou suposições possam ser igualadas com hipóteses científicas, já que estas são deduzidas a partir de teorias formuladas em relação a outras teorias ou estudos. Ou seja, a formulação de hipóteses na ciência é o resultado de uma acumulação de saber sobre o tema. No jornalismo, a acumulação é mais limitada e se refere, sobretudo, a informações reunidas sobre o assunto da pauta.

Em outras palavras, jornalistas desenvolvem hipóteses a serem testadas durante a reportagem (ver a respeito em Stocking e LaMarca, 1990), embora estas não possam ser retratadas como científicas. Estas suspeitas não vêm de uma teoria, mas sim das informações sobre o caso a ser investigado. Elas também são testadas de maneira diferente.

Ao mesmo tempo, assim como a ciência, o jornalismo pode se aproximar da realidade através da falsificação do que se sabe até agora. “O que se sabe até agora”, no entanto, não se refere aos últimos estudos científicos sobre o assunto, mas sim ao que o homem comum até o momento acredita ser verdade. O jornalismo pode, portanto, falsificar convicções do senso comum. Este objetivo, no entanto, divide o lugar com outros, que também têm que ser alcançados pelo jornalismo, como por exemplo o entretenimento, o reforço das regras sociais, o diálogo entre grupos de posições políticas diferentes, entre outros.

No que diz respeito ao controle da observação, isto depende do conceito de controle. No que concerne a utilização de um método, pode-se dizer que o jornalismo está submetido a uma outra forma de controle do que a ciência. Se considerar como critério a realização da experiência e sua possível repetição dentro das regras determinadas pelo cientista, o jornalismo, assim como parte das ciências sociais, não realiza uma observação controlada.

Ao mesmo tempo, Meditsch aponta com razão para o fato de o jornalismo não ser um tipo de conhecimento sistematizado como a ciência. Enquanto o cientista parte de uma base de informações na qual o objeto a ser observado recebe um conceito, é colocado em uma correlação clara com um determinado contexto e só então é analisado, o jornalista não dispõe das condições que o permitiriam fazer isso, como por exemplo conhecimento específico ou tempo.

Semelhanças entre métodos científicos e jornalísticos só podem ser observadas em determinados aspectos. Os temas a serem pesquisados ou investigados precisam ser delimitados em ambos, para que a investigação ou pesquisa se torne possível. Os critérios para a delimitação, no entanto, se diferem. No jornalismo, são relevância, validade e compreensão (Haller, 1991: 20). O que é relevante para o jornalismo pode não ser para a ciência. Validade significa veracidade e é uma característica comum aos objetos científicos e jornalísticos. Compreensão se refere à abrangência e à precisão das informações para que o acontecimento e o seu contexto possam ser entendidos. Este critério varia em ambos os processos de conhecimento, já que o cientista trabalha com um público especializado e o jornalista, não.

Os recursos disponíveis para uma investigação jornalística e para uma pesquisa científica são desiguais. Jornalistas não têm nem o tempo, nem os recursos financeiros e a liberdade (em relação à organização em que trabalha) que um cientista tem para pesquisar.

Além da diferença de tempo e das organizações para as quais trabalham, a especialidade diferencia ambos os profissionais. O jornalista não é nenhum especialista. Enquanto o cientista trabalha com um tema, o jornalista se ocupa com conteúdos diferentes:

“Direto ao ponto, pode-se dizer que ambos (...) praticam o mesmo negócio, embora o cientista social tenha muito mais tempo para fazer o seu trabalho. Os seus resultados, no entanto, se mantém, via de regra, altamente desconhecidos e sem conseqüências por causa de sua terminologia, que só é compreensível para um público específico.” (Fabris, 1981: 16, tradução nossa).

Outra diferença consiste nas expectativas, que no caso do jornalismo são variadas. “Objetivos diferentes concorrem entre si, através do que a palavra `verdade` nem sempre é tomada como prioridade” (Neuberger, 1996: 164, tradução nossa).

Por outro lado, tanto cientistas quanto jornalistas têm na tarefa de conhecer e mediar a realidade o seu ganha-pão. Ambos trabalham no negócio de examinar e testar as teorias existentes, pensar sobre suas consequências, desenvolver hipóteses relacionadas a estas que possam ser testadas (Meyer, 2001: 15).

4. Conclusão

O jornalismo como processo de conhecimento tem semelhanças e diferenças com a ciência e com o senso comum, de tal maneira que ele pode ser classificado como um tipo entre ambos os tipos clássicos, um processo híbrido de conhecimento (Tabela 1)².

Jornalistas trabalham com a singularidade dos acontecimentos, e não com aquilo que permitiria generalizá-los. Isto diferencia o jornalismo tanto do senso comum quanto da ciência.

Além disso, uma investigação jornalística segue um determinado método. Só através deste os jornalistas conseguem levar a cabo a tarefa de processar e estruturar os conteúdos vivenciados, de conhecer e organizar a realidade que observaram e apresentá-la nas suas notícias e reportagens. Estes profissionais não podem retratar o conhecimento que adquirem como natural, mas precisam de justificar como sabem aquilo que noticiaram. Isto impede que o jornalismo seja classificado como senso comum.

Ao mesmo tempo, a investigação jornalística não parte de uma teoria formulada a partir de outras já testadas, mas sim de uma base de informações sobre o tema. Desta base, as hipóteses são formuladas. O método utilizado para testá-las se difere do usado pelo cientista, bem como a justificativa.

Classificar o jornalismo como uma forma de ciência é exigir dos jornalistas o que eles não têm condições de cumprir com os recursos que lhes estão disponíveis. Igualá-lo ao senso comum é condená-lo a reproduzir e reforçar aquilo que já se sabe, mesmo quando este “saber” não corresponde à realidade, e desperdiçar a chance e o potencial do jornalismo como processo de conhecimento.

 

Notas:

(1) Mesquista, C. (2002). Slobodan Milosevic. O réu, o julgamento e a hipocrisia. Observatório da Imprensa, 160, 20/02/2002. Retirado em 05.02.2007 no World Wide Web: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/ artigos/fd200220021p.htm

(2) Para visualizar a Tabela 1, clique em http://www.cienciasecognicao.org/revista/index.php/cec/article/view/617/399. Se o artigo não abrir em PDF, clique na opção Imprimir artigo, em Ferramentas de artigos, no lado esquerdo da página. A Tabela 1 está na página 13.

 

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